Categoria: Poema
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Cassiano Ricardo – Evocação dos Mortos

Um dia conversarei com os meus mortos. E todos os que morri (os muitos eus que eu fui) reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão, me contarão (sua) a minha história. Não obstante a tua gélida memória. Ah, os defuntos que ficaram atrás de mim fotograficamente, agora juntos. Não acredito que…
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Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite Os homens acariciam o clitóris das esposas Com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias Contam dinheiro, papéis, documentos E folheiam nas revistas A vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite Os homens penetram suas esposas Com tédio e pénis. O mesmo tédio com que todos os…
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Waly Salomão – A Fábrica do Poema

do livro: Algaravias: FÁBRICA DO POEMA in memoriam Donna Lina Bo Bardi sonho o poema de arquitetura idealcuja própria nata de cimento encaixa palavra porpalavra,tornei-me perito em extrair faíscas das britase leite das pedras.acordo.e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.acordo.o prédio, pedra e cal, esvoaçacomo um leve papel solto à mercê do ventoe evola-se,…
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Ferreira Gullar – Galo Galo

O galo no saguão quieto. Galo galo de alarmante crista, guerreiro, medieval. De córneo bico e esporões, armado contra a morte, passeia. Mede os passos. Pára. Inclina a cabeça coroada dentro do silêncio: — que faço entre coisas ? — de que me defendo ? Anda No saguão. O cimento esquece o seu último passo.…
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Manuel Bandeira – Profundamente

Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o…
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Manuel Bandeira – Poema Só Para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando… – Humildemente pensando na vida e nas…
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Carlos Drummond de Andrade – A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio…
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José Paulo Paes – A Casa

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que…
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José Paulo Paes – Revisitação

Cidade, por que me persegues? Com os dedos sangrando já não cavei em teu chão os sete palmos regulamentares para enterrar meus mortos? Não ficamos quites desde então? Por que insistes em acender toda noite as luzes de tuas vitrinas com as mercadorias do sonho a tão bom preço? Não é mais tempo de comprar.…
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Philip Larkin – Este Seja o Poema

Teu pai e mãe fodem contigo. Que não o queiram, tanto faz. Passam-te cada podre antigo, além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora, fodera-os já do mesmo modo, gente ora austero-piegas, ora se engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossas num mar que só fica mais fundo. Dá…