Mês: dezembro 2021
-
Joan Margarit – O presente e Forès

IManhã de verão nos campos.E Mariona, com seu avental,cavando no jardim, sob as rosas.Mònica — aos doze — anda de bicicletana estrada para a aldeia,e Joana e Carles — ambos com cinco — dormem.Reluz o ar do feriado:pela janela aberta para as árvores,entre as folhas sopradas pela brisa,escapa o piano das «Suites inglesas»,e de repente…
-
Joan Margarit – Canção de ninar

Dorme, Joana.E que este «Loverman» — sombrio e trágicodo sax do teu irmão em Montjuïc —possa acompanhar-te por toda a eternidade pelos caminhosque só a música conhece.Dorme, Joana, dorme.E, se possível, não te esqueçasde teus anos no ninho que dentro de nós tu deixaste.Envelhecer será também reteras cores que um dia brilharam em teus olhos.Dorme,…
-
Joan Margarit – Recordações militares

Ao crepúsculo, algumas centenasde homens em formação,silenciosos, imóveis, ouvíamosum solo de trompete. Além das noitesde sentinela sob a estreladaescuridão do acampamento,acho que do meu tempo sentirei faltade tudo o que não se podia comprar. Das sensaçõesao falar sobre a morte. E da honra.A honra, um céu distante. Deficiente, andavas de muletas:nunca houve para mim garota…
-
Joan Margarit – Passageira

Na grande janela do aeroportoum amanhecer de luz branca, entre a névoa,se ergue diante da garota com um livroque ela nunca chegará a ler.Minha juventude está ali também,naquelas páginas de papel bíbliados russos do século dezenove.Um tomo grosso encadernado em couro. Natashas e Nastenkas, silenciosasamigas de quem aprendia esperar, na neve e na nevasca,uma acolhedora…
-
Joan Margarit – Uma fotografia pendurada na parede

Uma fotografia pendurada na paredeXavier Miserachs Paseo de Gracia,o inverno em que, sob a neve, tu e eu nos conhecemos.Em primeiro plano, de costas para mim,alguns transeuntes que se afastam:talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,e talvez a mulher com um gorrode lã sejas tu.O fundo se desvanecepor trás dos flocos que caem,nublando o…