Eavan Boland – Eurídice fala

Eavan Boland – Eurídice fala


Como te reconhecerei no submundo?
Como iremos nos encontrar?

Vivemos tanto tempo no mundo físico —
Nossos céus repletos de estrelas reais,
Tangíveis marés em nossa enseada —
O que faremos com a solidão do que é mítico?

Caminhando junto a valas transbordando de dáctilos1,
Perto de um barqueiro cujos pés são escandidos para ele,
À margem de um rio escrito e reescrito
Como elegia, épico, épodo.

Lembras-te do ar rarefeito dos nossos invernos terrenos?
A geada era um ferro, uma descida furtiva.
O crepúsculo estava sempre em sessão

E ninguém precisava anotar,
Ou reiterar, ou registrar, nem jamais precisaria,
E nunca precisará,
A música franca do reconhecimento,

Nem a maneira como eu costumava ficar à janela —
As colinas escurecendo, dizendo,

Enquanto uma sombra se tornava um passo,
E uma capa de chuva era tecida com a luz dos postes:

Eu te reconheceria em qualquer lugar.

Trad.: Nelson Santander

  1. O termo Dáctilos concentra três leituras simultâneas: o pé métrico da épica greco-latina (uma sílaba tônica seguida de duas átonas), os dedos dos mortos acumulados nas margens do Estige (dáktylos, em grego, significa “dedo”), e os Dáctilos da mitologia arcaica — ferreiros e feiticeiros ctônicos associados à Grande Mãe (Reia ou Cibele), seres que habitam naturalmente o mundo subterrâneo. As três leituras coexistem sem se excluir: o submundo de Boland transborda ao mesmo tempo de métrica épica, de morte física e de criaturas primordiais. O verso condensa, numa única palavra, a tensão central do poema — o confronto entre o peso concreto do mundo dos vivos e a natureza ao mesmo tempo literária, mítica e carnal do além. ↩︎

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Eurydice Speaks

How will I know you in the underworld?
How will we find each other?

We lived for so long on the physical earth—
Our skies littered with actual stars
Practical tides in our bay—
What will we do with the loneliness of the mythical?

Walking beside ditches brimming with dactyls,
By a ferryman whose feet are scanned for him
On the shore of a river written and rewritten
As elegy, epic, epode.

Remember the thin air of our earthly winters?
Frost was an iron, underhand descent.
Dusk was always in session

And no one needed to write down
Or restate, or make record of, or ever would,
And never will,
The plainspoken music of recognition,

Nor the way I often stood at the window—
The hills growing dark, saying,

As a shadow became a stride
And a raincoat was woven out of streetlight

I would know you anywhere.

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