Eavan Boland – Eurídice fala

Eavan Boland – Eurídice fala

Como te reconhecerei no submundo?
Como iremos nos encontrar?

Vivemos tanto tempo na terra física —
Nossos céus salpicados de estrelas reais,
Tangíveis marés em nossa enseada —
O que faremos com a solidão do que é mítico?

Caminhando ao lado de valas transbordando de dáctilos1,
Ao lado de um barqueiro cujos pés são escandidos para ele,
À margem de um rio escrito e reescrito
Como elegia, épico, épodo.

Lembras-te do ar rarefeito dos nossos invernos terrenos?
A geada era uma descida férrea e furtiva.
O crepúsculo estava sempre em sessão

E ninguém precisava anotar,
Ou repetir, ou registrar, nem jamais precisaria,
E nunca precisará,
A música franca do reconhecimento,

Nem a maneira como eu costumava ficar à janela —
As colinas escurecendo, dizendo,

Enquanto uma sombra se tornava um passo,
E uma capa de chuva era tecida com a luz dos postes:

Eu te reconheceria em qualquer lugar.

Trad.: Nelson Santander

  1. Na métrica greco-latina, o dáctilo é um pé formado por uma sílaba longa seguida de duas breves; na poesia acentual inglesa, por uma sílaba tônica seguida de duas átonas. O termo deriva do grego dáktylos («dedo»). O verso seguinte prolonga o jogo entre os pés métricos e os pés do barqueiro, submetidos à escansão poética. ↩︎

Eurydice Speaks

How will I know you in the underworld?
How will we find each other?

We lived for so long on the physical earth—
Our skies littered with actual stars
Practical tides in our bay—
What will we do with the loneliness of the mythical?

Walking beside ditches brimming with dactyls,
By a ferryman whose feet are scanned for him
On the shore of a river written and rewritten
As elegy, epic, epode.

Remember the thin air of our earthly winters?
Frost was an iron, underhand descent.
Dusk was always in session

And no one needed to write down
Or restate, or make record of, or ever would,
And never will,
The plainspoken music of recognition,

Nor the way I often stood at the window—
The hills growing dark, saying,

As a shadow became a stride
And a raincoat was woven out of streetlight

I would know you anywhere.

Visualizações: 44

Receba novos poemas no seu e-mail

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *