Joan Margarit – Rumo ao crepúsculo

Joan Margarit – Rumo ao crepúsculo

Meu pai avança ereto e, ao lado dele, minha mãe
carrega minha irmã nos braços.
Joana1 apressa o passo porque, com suas muletas,
tem medo de ficar para trás.
Os avós já estão tão longe
que mal os distingo.
Minha mãe diz: Vamos, logo vai escurecer.
Já se aproxima a nossa segunda morte,
cada vez são menos os que ainda se lembram de nós.
O sol se põe. Estamos sempre longe
de onde realmente nos encontramos.
O ar é composto de famílias.
E nós, de vozes que se afastam.

Trad.: Nelson Santander

  1. Joana Margarit i Ribalta, filha do poeta, nasceu com paralisia cerebral e morreu antes do pai — ela que aparece neste poema ainda viva, apressando o passo com suas muletas no cortejo familiar rumo ao crepúsculo. Sua vida e sua ausência atravessam toda a obra de Margarit como uma ferida luminosa. O poeta lhe dedicou um livro inteiro — Joana —, em que o luto se transforma em canto. A tradução para o português, publicada no blog, pode ser lida em: https://singularidadepoetica.art/2021/12/13/joana-sumario/ ↩︎

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Hacia el Crepúsculo

Mi padre avanza erguido y, a su lado, mi madre
lleva a mi hermana en brazos.
Joana se apresura porque, con sus muletas,
tiene miedo a quedarse rezagada.
Los abuelos están ya tan lejanos
que apenas los distingo.
Mi madre dice: Vámonos, pronto oscurecerá.
Se acerca ya nuestra segunda muerte,
son menos cada vez los que aún nos recuerdan.
El sol se pone. Estamos siempre lejos
de donde de verdad nos encontramos.
El aire está compuesto de familias.
Y nosotros, de voces que se alejan.

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