Tadeusz Kantor1
Vestia-se de preto,
como um funcionário de seguradora
especializado em causas perdidas.
Eu o avistava na Urzednicza 2
apressado para pegar o bonde,
e na Krzysztofory, onde solenemente cumpria
seus deveres, recebendo outros artistas vestidos de preto.
Eu o desdenhava com o orgulho
de quem nada fez por si mesmo
e despreza as falhas das obras concluídas.
Muito mais tarde, porém,
vi A Classe Morta e outras peças,
e fiquei mudo de medo e admiração —
testemunhei a morte sistemática,
o declínio, vi como o tempo
age em nós, o tempo costurado às roupas ou aos farrapos,
nos traços que se desfazem no rosto, vi
a obra das lágrimas e do riso, o ranger dos dentes,
vi o tédio e a ânsia em ação, e como
a oração pode habitar em nós, se permitirmos,
o que realmente são as marchas militares bravateiras,
o que é matar, e sorrir,
e o que são as guerras, visíveis ou invisíveis, justas ou não,
o que significa ser judeu, alemão ou polonês
ou talvez simplesmente humano,
por que os velhos se tornam infantis,
e as crianças habitam corpos envelhecidos
num andar alto sem elevador e tentam
nos dizer algo, nos avisar, mas é inútil,
em vão acenam com lenços cinzentos
esticando-se de suas carteiras escolares riscadas com canivetes
— já sabem que lhes restam apenas
as inúmeras formas de deixar ir,
o pathos dos sorrisos impotentes,
as incontáveis maneiras de se despedir,
e nem sequer ouvem os cenários sujos
cantando com eles, cantando timidamente
e talvez subindo aos céus.
Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês vertida do Polonês por Clare Cavanagh
- Tadeusz Kantor (1915–1990) foi pintor, diretor teatral de vanguarda e um dos grandes nomes da cultura polonesa do século XX. A Classe Morta (1975) foi a mais famosa de suas peças teatrais. A obra explora as obsessões centrais de Kantor: as guerras mundiais, a história da Polônia como território de invasões e domínio opressivo, e as memórias íntimas do artista sobre sua infância. Seu “Teatro da Morte” é baseado numa singular inversão de valores: a morte é vista como contraponto positivo aos valores de uma sociedade de consumo. O ator deveria aparecer ao espectador com a mesma estranheza e distância com que se contempla um cadáver. ↩︎
- As referências geográficas do poema — Urzednicza e Krzysztofory — são ruas e galeria em Cracóvia, onde tanto Zagajewski quanto Kantor viveram e trabalharam. O “guarda-roupa preto” de Kantor é historicamente documentado: ele se vestia invariavelmente de preto. ↩︎
Tadeusz Kantor
He dressed in black,
like a clerk at an insurance bureau
who specializes in lost causes.
I’d spot him on Urzednicza
rushing for a streetcar,
and at Krzysztofory as he solemnly discharged
his duties, receiving other artists dressed in black.
I dismissed him with the pride
of someone who’s done nothing himself
and despises the flaws of finished things.
Much later, though,
I saw The Dead Class and other plays,
and fell silent with fear and admiration—
I witnessed systematic dying,
decline, I saw how time
works on us, time stitched into clothes or rags,
into the face’s slipping features, I saw
the work of tears and laughter, the guashing of teeth,
I saw boredom and yearning at work, and how
prayer might live in us, if we would let it,
what blowhard military marches really are,
what killing is, and smiling,
and what wars are, seen or unseen, just or not,
what it means to be a Jew, a German, or
a Pole, or maybe just human,
why the elderly are childish,
and children dwell in aging bodies
on a high floor with no elevator and try
to tell us something, let us know, but it’s useless,
in vain they wave gray handkerchiefs
stretching from their school desks scratched with penknives
—they already know that they have only
the countless ways of letting go,
the pathos of helpless smiles,
the innumerable ways of taking leave,
and they don’t even hear the dirty stage sets
singing with them, singing shyly
and perhaps ascending into heaven.

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