Yehuda Amichai – Tudo isso compõe um ritmo de dança

Yehuda Amichai – Tudo isso compõe um ritmo de dança

Quando um homem envelhece, sua vida se torna menos dependente
dos ritmos do tempo e de suas estações. Às vezes, a escuridão
cai bem no meio de um abraço
entre duas pessoas à janela; ou o verão chega ao fim
durante um caso de amor, enquanto o amor prossegue
outono afora; ou um homem morre de repente no meio de uma frase
e suas palavras ficam ali, uma em cada margem; ou a mesma chuva
cai sobre quem se despede e vai embora
e sobre quem diz adeus e fica; ou um único pensamento
vagueia por cidades e vilas e muitos países
na cabeça de um homem que está viajando.

Tudo isso compõe um estranho
ritmo de dança. Mas não sei quem está dançando ao seu compasso
nem quem dita o ritmo.

Há algum tempo, encontrei uma velha fotografia minha
com uma menininha que morreu há muito tempo.
Estávamos sentados juntos, abraçados como fazem as crianças,
diante de um muro onde se erguia uma pereira: uma das mãos dela
em meu ombro, e a outra livre, estendendo-se da morte
até mim, agora.

E eu soube que a esperança dos mortos é o seu passado,
e Deus o tomou.

Trad.: Nelson Santander

All These Make a Dance Rhythm

When a man grows older, his life becomes less dependent
on the rhythms of time and its seasons. Darkness sometimes
falls right in the middle of an embrace
of two people at a window; or summer comes to an end
during a love affair, while the love goes on
into autumn; or a man dies suddenly in the middle of speaking
and his words remain there on either side; or the same rain
falls on the one who says goodbye and goes
and on the one who says it and stays; or a single thought
wanders through cities and villages and many countries
in the head of a man who is traveling.

All these make a strange
dance rhythm. But I don’t know who’s dancing to it
or who’s calling the tune.

A while back, I found an old photo of myself
with a little girl who died long ago.
We were sitting together, hugging as children do,
in front of a wall where a pear tree stood: her one hand
on my shoulder, and the other one free, reaching out from the dead
to me, now.

And I knew that the hope of the dead is their past,
and God has taken it.

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