José Emilio Pacheco – 4 poemas: a fotografia como ausência

José Emilio Pacheco – 4 poemas: a fotografia como ausência

Contra a Kodak

Coisa terrível, a fotografia.
Pensar que nesses objetos quadrangulares
jaz um instante de 1959.
Rostos que já deixaram de existir,
ar que já não há.
Porque o tempo se vinga
de quem rompe a ordem natural ao detê-lo,
as fotos racham, amarelecem.

Não são a música do passado:
são o estrondo
das ruinas interiores que desabam.
Não são o verso, mas o estalido
de nossa irremediável cacofonia.

Retratos

Nada detém o instante,
No retrato,
os mortos são os que mais morrem.

Imagem

A foto fica lá. Deteve um segundo.
Tornou-se passado no mesmo instante.
As ondulações do tempo nunca cessam.
A velhice nos afasta, minuto a minuto,
da imagem imóvel onde quem fomos
contempla fielmente o morto que seremos.

Sepia

Sépia é o desbotamento das fotografias que amarelecem.
Dentro de poucos anos terão desaparecido,
como seus habitantes fantasmagóricos.
A vida adquire consistência de ar
Permanece a luz, dentro e fora da moldura.

Trad.: Nelson Santander

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Contra la kodak

Cosa terrible es la fotografía.
Pensar que en esos objetos cuadrangulares
yace un instante de 1959.
Rostros que ya no son,
aire que ya no existe.
Porque el tiempo se venga
de quienes rompen el orden natural deteniéndolo,
las fotos se resquebrajan, amarillean.

No son la música del pasado:
son el estruendo
de las ruinas internas que se desploman.
No son el verso sino el crujido
de nuestra irremediable cacofonía.

Retratos

Nada fija el instante,
En el retrato
se mueren más los muertos.

Imagen

La foto queda allí. Detuvo un segundo.
Se convirtió en pasado en el mismo instante.
El oleaje del tiempo no cesa nunca.
La vejez nos distancia a cada minuto
de la imagen inmóvil donde quien fuimos
observa fiel al muerto que seremos.

Sepia

Sepia es el descolor de las fotografías amarillantes
En pocos años más se habrán borrado,
Como sus pobladores fantasmales
La vida adquiere consistencia de aire
Permanece la luz dentro y fuera del marco.

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