“Conto apenas as horas de sol” — 1 2
está gravado na pedra do relógio de sol pelas horas desgastado —
quando, entre flores e sombras, caminhávamos no quintal.
O tempo não se lamenta por ninguém. O inverno devora, cabal,
as folhas e as flores; a neve assume seu fado.
Mas eu só conto as horas de sol.
Lembrando os dias claros: sobre o relógio de sol
teu corpo alto se ergue, parando o tempo em teu abraço desalumiado,
onde, entre flores e sombras, caminhávamos no quintal.
Teu inverno, teus dias sombrios, teu silêncio descomunal;
e nenhum choro de criança poderia resgatar-te daquele lado.
Mas eu só conto as horas de sol.
Estação após estação, entre neve, chuva e sol,
o relógio de sol mede momentos que pelo tempo não podem ser apagados:
quando, entre flores e sombras, caminhávamos no quintal.
O tempo nos desgasta, a chuva corrói, açoita-nos o vento invernal;
pelas estações mais rigorosas meu rosto foi moldado,
embora agora eu só conte as horas de sol,
quando, entre flores e sombras, tu e eu caminhávamos no quintal.
Trad.: Nelson Santander
- A vilanela é uma forma poética de origem renascentista, cujo nome deriva provavelmente do italiano villanella — canção rústica, de campo. Estruturada em cinco tercetos seguidos de um quarteto final, ela opera por um mecanismo de obsessão controlada: dois versos-refrão, fixados na primeira estrofe, retornam alternadamente ao fim de cada terceto e se reúnem, lado a lado, nos dois últimos versos do quarteto — como se o poema se recusasse a deixar certas palavras irem embora. É essa mecânica de repetição e retorno que Laura Gilpin explora aqui com precisão elegíaca: numa elegia ao pai, o que a forma faz — trazer de volta, insistentemente, as mesmas frases, as mesmas imagens — é o espelho exato do que o luto faz à memória. Os versos não avançam; eles voltam. Tal como a filha que enlutada volta, sempre, às mesmas cenas luminosas da infância, o poema gira em torno de si mesmo sem conseguir — e sem querer — seguir em frente. ↩︎
- “Conto apenas as horas de sol” é variação de um mote gravado em relógios de sol desde, ao menos, o século XVIII. A versão latina mais conhecida, Horas non numero nisi serenas — “só conto as horas serenas” —, foi imortalizada pelo ensaísta inglês William Hazlitt no texto On a Sun-Dial (1827), em que ele a descreve como “a mais clássica de todas as ideias”: a de que o tempo só merece ser registrado quando traz luz. A frase, aliás, já circulava em inglês desde 1767 numa forma muito próxima da que Gilpin retoma: “Let others tell of storms and showers, I’ll only count your sunny hours.” O relógio de sol é, por definição, um instrumento cego às horas nubladas — ele só marca o tempo quando há sol para projetar sombra sobre o mostrador. Ao gravar essa divisa na pedra, alguém transformou a limitação técnica do aparelho numa filosofia de vida: esquecer o que dói, reter apenas o que ilumina. Gilpin toma esse objeto e essa frase emprestados — literalmente os encontra gravados na pedra de um jardim — e os usa como âncora de uma elegia ao pai, num gesto que é, ele mesmo, já uma forma de escolher o sol. ↩︎
Villanelle: Elegy for my Father
“I count only the sunny hours”
is carved in the stone on the sundial’s weathered face
where we walked in the garden among shadows and flowers.
Time grieves for no-one. Winter quickly devours
the leaves and blossoms; snow takes their place.
But I count only the sunny hours.
Remembering bright days: your tall body towers
above the sundial, stopping time in your dark embrace,
in the garden where we walked among shadows and flowers.
Your winter, your dark days, your silence overpowers;
and no child’s cry could call you from that place.
But I count only the sunny hours.
Season after season, through sun, snow and showers,
the sundial measures moments that time cannot erase:
when we walked in the garden among shadows and flowers.
Time weathers us all, the rain erodes, the winter wind scours;
the harshest seasons are what shaped my face,
though now I count only the sunny hours,
when you and I walked among shadows and flowers.

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