Joan Margarit – Restauração

Joan Margarit – Restauração

Um meio-dia de verão. Sob o sol, a abadia.
Visitantes em grupos respeitosos
exploram os espaços vagos de outros tempos,
hoje reconstruídos, bem iluminados.
Mas que já é um cadáver. Aqui só havia vida
quando a escuridão, vinda das abóbadas,
deslizava pelos muros.
Monges encapuzados, transformados
em terra vermelha sob algum vinhedo,
erguiam estruturas distintas em suas mentes.
Faziam-no com o luxo
de uma ideia de Deus hoje desaparecida.
Restaurar significa embalsamar
um cadáver de pedra.
Sou velho e não desejo que me reconstruam.
Conheço bem minhas trevas, as brasas,
as tochas: não existe outro clarão
senão aquele do próprio fogo.
E, sob o capuz, os monges o sabiam.

Trad.: Nelson Santander

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Restaurar

Un mediodía de verano. Bajo el sol, la abadía.
Visitantes en grupos respetuosos
exploran los espacios vacantes de otro tiempo,
hoy reconstruidos, bien iluminados.
Pero ya es un cadáver. Aquí sólo hubo vida
cuando la oscuridad, desde las bóvedas,
se deslizaba hacia los muros.
Monjes encapuchados, convertidos
en tierra roja bajo algún viñedo,
alzaban estructuras distintas en su mente.
Lo hacían con el lujo
de una idea de Dios ya desaparecida.
Restaurar significa embalsamar
un cadáver de piedra.
Soy viejo y no deseo que se me reconstruya.
Conozco bien mi oscuridad, las brasas,
las antorchas: no hay otro resplandor
que ese del propio fuego.
Y, bajo la capucha, los monjes lo sabían.

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