Mourid al-Barghouti – Também está bem

Mourid al-Barghouti – Também está bem

Também está bem morrer em nossas camas1
sobre um travesseiro limpo
e entre amigos.

Está bem morrer, uma vez apenas,
com as mãos cruzadas sobre o peito,
pálidas e vazias,
sem arranhões, sem correntes, sem bandeiras,
e sem súplicas.

Está bem ter uma morte limpa,
sem furos na camisa,
sem marcas nas costelas.

Está bem morrer
com um travesseiro branco sob o rosto, não o asfalto,
as mãos repousando nas de quem amamos,
cercado por médicos e enfermeiros aflitos,
sem nada além de um gracioso adeus,
sem se importar com a história,
deixando este mundo como o encontramos,
com a esperança de que, algum dia, outra pessoa
venha mudá-lo.

Trad.: Nelson Santander, a partir da tradução inglesa de Radwa Ashour

  1. Mourid al-Barghouti (1944-2021) foi um poeta palestino nascido em Deir Ghassanah, na Cisjordânia. Considerado uma das vozes mais importantes da literatura palestina contemporânea, viveu a maior parte de sua vida no exílio, principalmente no Egito, após a Guerra dos Seis Dias de 1967. Sua obra é profundamente marcada pela experiência do desarraigamento, da perda da pátria e da identidade fragmentada. Autor de diversos livros de poesia e das memórias “Eu vi Ramallah. Memórias”, Barghouti desenvolveu um estilo que combina lirismo com crítica social sutil, usando ironia e linguagem cotidiana para abordar temas universais através da experiência palestina específica.  ↩︎

It’s Also Fine

It’s also fine to die in our beds
on a clean pillow
and among our friends.

It’s fine to die, once,
our hands crossed on our chests
empty and pale
with no scratches, no chains, no banners,
and no petitions.

It’s fine to have an undustful death,
no holes in our shirts,
and no evidence in our ribs.

It’s fine to die
with a white pillow, not the pavement, under our cheeks,
our hands resting in those of our loved ones
surrounded by desperate doctors and nurses,
with nothing left but a graceful farewell,
paying no attention to history,
leaving this world as it is,
hoping that, someday, someone else
will change it.

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