Olho para mim mesmo1:
não tenho problemas.
Pareço bem
e algumas garotas
podem até gostar de meus cabelos grisalhos;
meus óculos são bem feitos,
minha temperatura corporal é de exatos trinta e sete graus,
minha camisa está passada e meus sapatos não apertam.
Não tenho problemas.
Minhas mãos não estão algemadas,
minha língua ainda não foi silenciada,
ainda não fui condenado
nem demitido do trabalho;
tenho permissão para visitar meus parentes na prisão,
tenho permissão para visitar alguns de seus túmulos em alguns países.
Não tenho problemas.
Não me espanta que um amigo
tenha desenvolvido um chifre na cabeça.
Admiro sua esperteza em esconder a óbvia cauda
sob as roupas, gosto de suas patas pacatas.
Ele pode me matar, mas eu o perdoarei,
pois ele é meu amigo:
pode me ferir de vez em quando.
Não tenho problemas.
O sorriso do âncora da TV
já não me causa enjoo
e me acostumei ao cáqui2 barrando minhas cores
dia e noite.
Por isso
sempre carrego meus documentos,
até na piscina.
Não tenho problemas.
Ontem, meus sonhos tomaram o trem noturno
e eu não soube como me despedir deles.
Ouvi dizer que o trem tinha sofrido um acidente
num vale deserto
(apenas o maquinista sobreviveu).
Agradeci a Deus, e fiquei não me preocupei,
pois tenho pequenos pesadelos
que espero que se transformem em grandes sonhos.
Não tenho problemas.
Olho para mim mesmo, do dia em que nasci até agora.
Em meu desespero, lembro
que há vida após a morte;
há vida após a morte
e não tenho problemas.
Mas pergunto:
Ó meu Deus,
há vida antes da morte?
Trad.: Nelson Santander, a partir da tradução inglesa de Radwa Ashour
- Mourid al-Barghouti (1944–2021), poeta palestino e autor das memórias Eu vi Ramallah, teve sua trajetória marcada pelo exílio. Expulso do Egito em 1977, viveu dezessete anos em Budapeste, separado da mulher, a escritora Radwa Ashour, e do filho. ↩︎
- Cáqui: cor associada a uniformes militares, empregada aqui como metonímia do poder militar. ↩︎
Outros poemas palestinos publicados no site: https://singularidadepoetica.art/2023/11/29/poemas-palestinos/
I Have No Problem
I look at myself:
I have no problem.
I look all right
and, to some girls,
my grey hair might even be attractive;
my eyeglasses are well made,
my body temperature is precisely thirty seven,
my shirt is ironed and my shoes do not hurt.
I have no problem.
My hands are not cuffed,
my tongue has not been silenced yet,
I have not, so far, been sentenced
and I have not been fired from my work;
I am allowed to visit my relatives in jail,
I’m allowed to visit some of their graves in some countries.
I have no problem.
I am not shocked that my friend
has grown a horn on his head.
I like his cleverness in hiding the obvious tail
under his clothes, I like his calm paws.
He might kill me, but I shall forgive him
for he is my friend;
he can hurt me every now and then.
I have no problem.
The smile of the TV anchor
does not make me ill anymore
and I’ve got used to the Khaki stopping my colours
night and day.
That is why
I keep my identification papers on me, even at
the swimming pool.
I have no problem.
Yesterday, my dreams took the night train
and I did not know how to say goodbye to them.
I heard the train had crashed
in a barren valley
(only the driver survived).
I thanked God, and took it easy
for I have small nightmares
that I hope will develop into great dreams.
I have no problem.
I look at myself, from the day I was born till now.
In my despair I remember
that there is life after death;
there is life after death
and I have no problem.
But I ask:
Oh my God,
is there life before death?

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