Às vezes, sou Dafne1.
Minhas mangas farfalham
ao vento,
e sinto a raiz verde
do loureiro, nutrindo
ou doendo com a estação.
E já fui Niobe2,
toda mãe,
toda lágrimas,
mas eu mesma
escondida em algum lugar
na pedra essencial.
Você diz que escrevo
como um homem
e espera que eu
sorria.
Ou me segura como se
eu fosse quebrar;
e de fato me desfaço
em suas mãos
como peças de um vasto
e não resolvido quebra-cabeça.
Talvez seja de Apolo3
que eu ainda fuja,
apesar de sua música
e de suas artes de curar.
Agora pinto minha boca
de vermelho, como sangue,
e em suas curvas,
secretos como qualquer rio,
sou Helena4 novamente,
e perigosa.
Trad.: Nelson Santander
- Dafne: Na mitologia grega, Dafne era uma ninfa perseguida por Apolo. Para escapar dele, foi transformada em loureiro por seu pai, o deus-rio Peneu, segundo uma das versões do mito. ↩︎
- Níobe: Na mitologia grega, Níobe vangloriou-se de ter mais filhos que Leto, mãe de Apolo e Ártemis. Como punição, os deuses mataram seus filhos. Consumida pela dor, Níobe foi transformada em pedra, da qual continuavam a brotar lágrimas. ↩︎
- Apolo: Na mitologia grega, Apolo é o deus associado, entre outros atributos, à música, à poesia, à profecia e à cura. ↩︎
- Helena: Helena de Troia, célebre por sua beleza, é personagem central do mito da Guerra de Troia, desencadeada após sua partida de Esparta com Páris, em circunstâncias que variam conforme a tradição. ↩︎
Sacred to Apollo
Sometimes I am Daphne.
My sleeves rustle
in the wind,
and I feel the green root
of the bay, nourishing
or aching with the season.
And I have been Niobe,
all mother,
all tears,
but myself
somewhere hidden
in the essential stone.
You say I write
like a man
and expect me
to smile.
Or you hold me as though
I would break;
and indeed I come apart
in your hands
like pieces of a vast
and unsolved puzzle.
Perhaps it is Apollo
I still flee from,
despite his music
and his healing ways.
Now I paint my mouth
red for blood,
and in its twistings,
secret as any river,
I am Helen again
and dangerous.

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