Linda Pastan – Consagrada a Apolo

Linda Pastan – Consagrada a Apolo

Às vezes, sou Dafne1.
Minhas mangas farfalham
ao vento,
e sinto a raiz verde
do loureiro, nutrindo-se
ou sofrendo com a estação.

E já fui Niobe2,
toda mãe,
toda lágrimas,
além de mim mesma
escondida em algum lugar
na pedra essencial.

Você diz que escrevo
como um homem
e espera que eu
sorria.

Ou me segura como se
eu fosse estilhaçar;
e de fato me despedaço
em suas mãos
como peças de um vasto
e não solucionado quebra-cabeça.

Talvez seja de Apolo3
que eu ainda fuja,
apesar de sua música
e de seus métodos de cura.

Agora pinto minha boca
vermelha de sangue,
e em seus contornos,
secretos como qualquer rio,
sou Helena4 novamente,
e perigosa.

Trad.: Nelson Santander

  1. Na mitologia grega, Dafne foi uma ninfa que, para escapar do amor obsessivo de Apolo, foi transformada em uma árvore de louro por seu pai, o deus do rio Peneu. ↩︎
  2. Niobe era uma rainha que se gabava de ser superior à deusa Leto por ter mais filhos. Em retaliação, os filhos de Leto, Apolo e Ártemis, mataram todos os filhos de Niobe, e ela, consumida pela dor, foi transformada em pedra. ↩︎
  3. Apolo é o deus da música, da poesia, da cura e das artes. Ele é frequentemente associado à luz e à verdade. No poema, Apolo simboliza uma força poderosa e, apesar de seus atributos positivos (música e cura), é descrito como alguém de quem o eu-lírico parece sentir a necessidade de fugir, sugerindo uma resistência às expectativas masculinas e pressões externas. ↩︎
  4. Helena de Troia, conhecida por sua extraordinária beleza, foi a causa da Guerra de Troia após ser sequestrada por Páris. ↩︎

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Sacred to Apollo

Sometimes I am Daphne.
My sleeves rustle
in the wind,
and I feel the green root
of the bay, nourishing
or aching with the season.

And I have been Niobe,
all mother,
all tears,
but myself
somewhere hidden
in the essential stone.

You say I write
like a man
and expect me
to smile.

Or you hold me as though
I would break;
and indeed I come apart
in your hands
like pieces of a vast
and unsolved puzzle.

Perhaps it is Apollo
I still flee from,
despite his music
and his healing ways.

Now I paint my mouth
red for blood,
and in its twistings,
secret as any river,
I am Helen again
and dangerous.

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