Louis MacNeice – A luz do sol sobre o jardim

Louis MacNeice – A luz do sol sobre o jardim

A luz do sol sobre o jardim
Endurece e esmorece,
Não podemos enjaular o minuto
Em suas malhas de ouro;
Quando tudo for dito,
Não podemos pedir perdão.

Nossa liberdade de soldados a soldo
Avança rumo ao seu fim;
A terra compele, sobre ela
Descem sonetos e pássaros;
E em breve, meu amigo,
Não teremos tempo para danças.

O céu era bom para voar,
Desafiando os sinos da igreja
E toda sinistra sirene
De ferro e o que ela diz:
A terra compele,
Estamos morrendo, Egito, morrendo1.

E sem esperar perdão,
Outra vez endurecidos de coração,
Mas contentes por termos nos sentado sob
Chuvas e trovoadas com você,
E gratos também
Pela luz do sol sobre o jardim.

Trad.: Nelson Santander

  1. Alusão a Antônio e Cleópatra, de William Shakespeare (IV, 15), em que Marco Antônio diz a Cleópatra: “I am dying, Egypt, dying”. MacNeice substitui o singular I pelo plural we, transformando a morte individual numa condição coletiva. ↩︎

The sunlight on the garden

The sunlight on the garden
Hardens and grows cold,
We cannot cage the minute
Within its nets of gold;
When all is told
We cannot beg for pardon.

Our freedom as free lances
Advances towards its end;
The earth compels, upon it
Sonnets and birds descend;
And soon, my friend,
We shall have no time for dances.

The sky was good for flying
Defying the church bells
And every evil iron
Siren and what it tells:
The earth compels,
We are dying, Egypt, dying

And not expecting pardon,
Hardened in heart anew,
But glad to have sat under
Thunder and rain with you,
And grateful too
For sunlight on the garden.

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