As folhas caídas retornarão às árvores.
Os cacos do vaso estilhaçado subirão
e se remendarão sobre a mesa.
As capas de chuva se dobrarão novamente
em seus invólucros achatados. O ovo,
a gema nua e seu halo transparente
deslizarão de volta para a fina casca de cálcio.
Imprecações serão despejadas de volta nas bocas,
cartas se desfarão sozinhas, palavras serão
sugadas para dentro da caneta. Meus cabelos grisalhos
escurecerão e se tornarão as plumas
de um cisne negro. As balas se encaixarão
de novo em suas câmaras, a pólvora
bem socada nos cartuchos. As bordas
desaparecerão dos mapas. A ferrugem
retornará ao oxigênio e ao tempo. O fogo
voltará ao tronco, o tronco à árvore,
a branca raiz enroscada
na semente não rompida. O gorjeio voará
para os pulmões da cotovia, as respostas
se tornarão perguntas uma vez mais.
Quando você voltar, os suéteres se desfiarão
e a lã crescerá nas ovelhas.
A rocha voltará para a montanha, o ouro
para o veio. O vinho será macerado na uva,
o azeite, prensado na oliveira. A teia se recolherá
ao ventre da aranha. Mariposas noturnas
abrigadas nos casulos, tinta drenada
da tatuagem índigo. Diamantes
retornarão ao carvão, o carvão
às samambaias em decomposição, a chuva às nuvens, a luz
às estrelas aspiradas de volta e para trás
para um ponto atemporal, do jeito que era
antes de o mundo surgir,
tão fresco, tão inteiro, nada
quebrado, nada despedaçado.
Trad.: Nelson Santander
BASS, Ellen. “When You Return”. In:_____Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014.
Miniantologia Poética – 24
When You Return
Fallen leaves will climb back into trees.
Shards of the shattered vase will rise
and reassemble on the table.
Plastic raincoats will refold
into their flat envelopes. The egg,
bald yolk and its transparent halo,
slide back into the thin, calcium shell.
Curses will pour back into mouths,
letters unwrite themselves, words
siphoned up into the pen. My gray hair
will darken and become the feathers
of a black swan. Bullets will snap
back into their chambers, the powder
tamped tight in brass casings. Borders
will disappear from maps. Rust
revert to oxygen and time. The fire
return to the log, the log to the tree,
the white root curled up
in the unsplit seed. Birdsong will fly
into the lark’s lungs, answers
become questions again.
When you return, sweaters will unravel
and wool grow on the sheep.
Rock will go home to mountain, gold
to vein. Wine crushed into the grape,
oil pressed into the olive. Silk reeled in
to the spider’s belly. Night moths
tucked close into cocoons, ink drained
from the indigo tattoo. Diamonds
will be returned to coal, coal
to rotting ferns, rain to clouds, light
to stars sucked back and back
into one timeless point, the way it was
before the world was born,
that fresh, that whole, nothing
broken, nothing torn apart.