Linda Hogan – Cruzamentos

Há um lugar no centro da terra
onde um oceano se dissolve dentro de outro
em um amor negro e sacro;
É por isso que as baleias de um oceano
conhecem as canções que vem de outro,
porque uma coisa se torna outra
e a areia escorre da ampulheta
para um outro tempo.
Vi uma vez um feto de baleia
em um breu de gelo brilhante.
Não era ainda uma baleia, e ainda exibia a sombra
de um rosto humano, e dedos que haviam crescido antes de
reverter e se transformar em barbatana.
Era uma criança de um mundo curvo de água que se tornou quadrado,
frio, pequeno.
Às vezes a nostalgia em mim
vem de quando me lembro
do território de origens cruzadas,
quando as baleias viviam em terra
e nós saíamos da água
para espalhar nossas vidas no ar.
Às vezes vem do copo esparramado de uma criança
que passou por todos os elementos
até o invólucro humano,
mas quando o virei para cima
vi que ela não queria viver
no ar. Ela mal perdera
os vestígios das fendas branquiais
e já era um membro do clã dos cruzamentos.
Como as marés,
ela queria voltar.
Eu falava entre os elementos
enquanto ela partia
e lhe disse: Vá.
Eu estava com os cavalos selvagens
naquela noite, quando a névoa se dissipou.
Eles atravessavam o rio a nado.
Escura era aquela água,
e ainda mais escuros, os cavalos,
e então eles se foram.

Trad.: Nelson Santander

Crossings

There is a place at the center of earth
where one ocean dissolves inside the other
in a black and holy love;
It’s why the whales of one sea
know songs of the other,
why one thing becomes something else
and sand falls down the hourglass
into another time.
Once I saw a fetal whale
on a black of shining ice.
Not yet whale, it still wore the shadow
of a human face, and fingers that had grown before the taking
back and turning into fin.
It was a child from the curving world of water turned square,
cold, small.
Sometimes the longing in me
comes from when I remember
the terrain of crossed beginnings
when whales lived on land
and we stepped out of water
to enter our lives in air.
Sometimes it’s from the spilled cup of a child
who passed through all the elements
into the human fold,
but when I turned him over
I saw that he did not want to live
in air. He’d barely lost
the trace of gill slits
and already he was a member of the clan of crossings.
Like tides of water,
he wanted to turn back.
I spoke across elements
as he was leaving
and told him, Go.
I was like the wild horses
that night when fog lifted.
They were swimming across the river.
Dark was that water,
darker still the horses,
and then they were gone.

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