Não vamos romantizar a morte nem encará-la com melancolia.
Ela é, de fato, nosso ato mais singular, a par do nascimento.
Devemos pensar nela como preparar o café da manhã:
ela é corriqueira assim. Quebre dois ovos numa tigela
ou uma tigela em dois ovos. Deslize para dentro de um caixão
depois que lhe drenarem os fluidos, ou, melhor ainda,
deslize para dentro do fogo. Claro que é um pouco difícil
aceitar seu último beijo, sua última bebida,
sua última refeição, sobre a qual os condenados
podem ser bastante exigentes, como se Deus pudesse
mandar um cheeseburger. Uns poucos amores passam
de relance pelo olho interior, mas a imagem predominante é
a de um lago sereno ao amanhecer: a névoa que sobe, o chamado
solitário de um mergulhão e o olhar fixo na água imóvel e opaca.
Como crianças outra vez, saberemos tudo o que estamos
destinados a saber: que a água é fria
e profunda, e que a luz do sol penetra apenas até certo ponto.
Trad.: Nelson Santander
Death Again
Let’s not get romantic or dismal about death.
Indeed it’s our most unique act along with birth.
We must think of it as cooking breakfast,
it’s that ordinary. Break two eggs into a bowl
or break a bowl into two eggs. Slip into a coffin
after the fluids have been drained, or better yet,
slide into the fire. Of course it’s a little hard
to accept your last kiss, your last drink,
your last meal about which the condemned
can be quite particular as if there could be
a cheeseburger sent by God. A few lovers
sweep by the inner eye, but it’s mostly a placid
lake at dawn, mist rising, a solitary loon
call, and staring into the still, opaque water.
We’ll know as children again all that we are
destined to know, that the water is cold
and deep, and the sun penetrates only so far.

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