Deus — o mais brutal entre todos os mitos —
não é capaz de salvar-me do meu eu.
É um beco sem saída:
quando um sentimento lhe é atribuído,
perde sua única força, que é seu arcano.
Às vezes, o imagino e vejo Deus
como um vasto cemitério de automóveis.
Chassis, chapas e restos
de peças metafísicas dispersas.
Os mitos são a claridade
por trás da qual encerramos tudo o que é escuro.
Provêm de algum erro profundo da memória.
Viver, afinal, é buscar um consolo
através da dor das palavras.
Na melodia cinzenta da chuva.
Nesse tédio militar do vento.
No céu de ontem, já sem oxigênio.
Não estava longe,
não era difícil. Era apenas
este poema épico sem épica.
O que Nietzsche1 talvez tenha querido dizer
é que os mitos frágeis são a nossa fortaleza.
Trad.: Nelson Santander
- N. do T.: O título alude à obra O nascimento da tragédia (1872), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, mencionado nos versos finais. ↩︎
El origen de la tragedia
Dios, que es el más brutal de entre los mitos,
no es capaz de salvarme de mi yo.
Es una calle sin salida:
cuando se le atribuye un sentimiento
pierde su única fuerza, que es su arcano.
A veces lo imagino y veo a Dios
como un gran cementerio de automóviles.
Chasis, planchas y restos
de piezas metafísicas dispersas.
Los mitos son la claridad
tras la cual encerramos todo lo que es oscuro.
Vienen de algún profundo error de la memoria.
Vivir, al fin y al cabo, es buscar un consuelo
a través del dolor de las palabras.
En la gris melodía de la lluvia.
En ese tedio militar del viento.
En el cielo de ayer, ya sin oxígeno.
No estaba lejos,
no era difícil. Era sólo
este poema épico sin épica.
Lo que Nietzsche quizá quiso decir
es que los mitos débiles son nuestra fortaleza.

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