Caminhando sozinha na floresta, deparei-me com
um cervo — e não era uma visão.
Ele me encarou, sobre suas quatro patas finas,
imóvel como uma pintura rupestre
tocada pela luz. Fiz-me imóvel.
Falei com ele em voz baixa. Já não me lembro
o que disse. O cervo me observava como um deus o faria,
apaziguado pelo meu espanto.
Então, lentamente, dei alguns passos adiante, e o cervo
não fugiu. Agora você já sabe: era o amor
que eu buscava alcançar, não o cervo, mas
aquilo que pairava no espaço entre nós. Sei
que era amor porque, enquanto eu prendia
a respiração, o cervo deu
alguns passos em minha direção antes
de se perder na camuflagem
dos galhos e das folhas.
Trad.: Nelson Santander
The Deer
Walking alone in a forest, I came upon
a deer—this was not a vision.
It faced me, on its four thin legs,
unmoved as a cave painting
brushed by light. I made myself still.
I spoke to it, softly. I can’t remember
what I said. The deer regarded me as a god would,
eased by my astonishment.
Then, slowly, I moved closer, and the deer
did not run. By now, you know it was love
I walked toward, not the deer, but
what hung in the space between us. I know
it was love because, as I held
my breath, the deer took
a few steps toward me before
bounding into the camouflage
of branches and leaves.

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