Roger Hecht – Soneto

Roger Hecht – Soneto

Quando Cotton Mather1 procurou o Paraíso,
Ele se pôs junto às covas úmidas e abertas
De crianças que o medo havia arrancado à vida
Ou em tormentos que ele não soube decifrar.
Para Mather, a remissão estava escondida
Nos músculos crispados do rosto a palpitar
Daquela pobre criança endemoninhada.
“Está viva a morte, em toda parte encarnada?”,
Ele se questionou, num lamento. Mas no horto,
Onde fui ontem assistir as folhas caindo,
Vi dois meninos que em um tronco, absortos,
Gravavam suas iniciais; e pensei que aquilo
Era seu único marco no mundo, sinal
Contra o sol que rola do breu à noite final.

Trad.: Nelson Santander

  1. Cotton Mather (1663-1728) foi um ministro puritano de Boston que desempenhou papel central nos julgamentos das bruxas de Salem (1692-1693). Obcecado pela presença do demônio, interpretava o sofrimento de crianças acusadas de bruxaria como sinais de possessão satânica e caminhos para a salvação. O poema contrasta sua busca mórbida pelo Paraíso com um gesto singelo de permanência: crianças gravando iniciais em uma árvore. ↩︎

Sonnet

When Cotton Mather looked for Paradise,
He stood beside the damp and open graves
Of children who had lost their lives through fear
Or in some agony he could not trace.
To Mather absolution seemed so near
It hid behind the muscles of the face
Of one poor child with Satan in her hair.
“Is death alive and ranging everywhere,”
He asked in his lament. But in the park,
Where yesterday I went to note the leaves,
I saw two children carving on a bark
Their small initials; and I thought that this
Was their one permanence, their single mark
Against the sun that rolls from dark to dark.

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