Meghan O’Rourke – Autorretrato equivocado como mãe de uma filha não concebida

Meghan O’Rourke – Autorretrato equivocado como mãe de uma filha não concebida

Você não quer estar viva?
Não posso dizer que não entendo —

Trazer algo ao mundo,
uma criatura que será regida pelo conflito entre sua “vontade”
e seus impulsos, o que a cerca, suas limitações…

Escolhemos muitas coisas, mas não podemos dizer que escolhemos a existência.
Minha existência não é minha
como são minhas opiniões, minhas calças azuis de crepe,
meu gosto por cerejas.

Minha existência pertence, em certo sentido, aos meus pais, e ao
universo — ou a Deus, se você acredita em deus.

Pertence à evolução,
à galáxia e ao espaço além,
aos buracos negros, às anãs vermelhas, ao
hidrogênio e ao oxigênio e ao carbono.

Minha existência pertence ao ferro.

Entendo, de algum modo, a relutância
do meu corpo
em impor existência a outro ser —

e no entanto eu — eu quase sinto que você é real

e eu conheço você, virando nas mãos uma concha da praia,
lembrando da camiseta do veleiro vermelho que você usou por todo o verão,

com um botão fazendo de sol amarelo —

•

Com meu pequeno celular sempre guardado junto ao corpo

sob o vasto céu lavanda partirei
em peregrinação

até a ponte por ali aceitar

a nobre verdade

que é deixar-se absorver
pela imensidão disso, sem falta

mesmo que o precipício
continue deixando mensagens de voz para você —

•

Talvez você não venha
porque é mais doloroso
para mim ter você
do que não ter?

: a pessoa que primeiro pôs um barco
numa garrafa
e depois se perguntou
por que tivera o impulso
de conter —

•

Antes de você enxergar,
as cores ondulam sob seus olhos
como algas.

É falso falar assim, mas
não é falso falar de você —

toda linguagem que tenho para você
é ornamental —
mas o sol não é ornamento

saia e veja-o
fique sob ele enquanto ele avança
deixe o corpo perder as fronteiras e se esvaziar

uma tela translúcida

por onde a luz possa passar.

Trad.: Nelson Santander

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Mistaken Self-Portrait as Mother of an Unmade Daughter

Do you not want to be alive?
I can’t say I don’t understand—

To bring something into the world,
a creature that will be ruled by the conflict between its “will”
and its impulses, surroundings, limitations. . . .

We choose many things, but we can’t say we choose existence.
My existence is not mine
the way my opinions are, my blue crepe pants,
my taste for cherries.

My existence belongs in some sense to my parents, and to
the universe—or God, if you believe in god.

It belongs to evolution,
the galaxy and the space beyond,
to black holes, to red dwarfs, to
hydrogen and oxygen and carbon.

My existence belongs to iron.

I understand, in a way, my body’s
reluctance
to impose existence on another—

and yet I— I almost feel you are real

and I know you, turning over the beach shell in my hands,
remembering the red sailboat shirt you wore all this summer,

with a button for the yellow sun—

•

With my small phone always tucked about my person

under the great lavender sky I’ll set forth
on a pilgrimage

to the bridge that way accept

the noble truth

which is to be absorbed
in the enormity of it without fail

even if the precipice
keeps leaving you voicemails—

•

Perhaps you don’t come
because it’s more painful
to me to have you
than not to?

: the person who first put a boat
in a bottle
and later wondered
why she’d had the impulse
to contain—

•

Before you have sight
the colors sway underneath your eyes
like kelp.

It is false to speak like this, but
false not to speak of you—

all the language I have for you
is ornamental—
but the sun is no ornament

go out and see it
stand under it rushing onward
let the body go borderless and drained

a scrim

for the light to come through.
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