Há meses não escrevo
um único poema.
Vivia humildemente, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas razões da obediência.
Contemplava os poentes
(carmesins, inquietos),
ouvia as aves se calarem
e o silêncio da noite.
Via os girassóis deixando pender
as cabeças ao crepúsculo, como se um carrasco distraído
tivesse passeado pelos jardins.
No peitoril se acumulava
a doce poeira de setembro, e os lagartos
se ocultavam nas reentrâncias dos muros.
Saía para longas caminhadas,
sedento de uma só coisa:
relâmpago,
transformação,
você.
Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês vertida do Polonês por Clare Cavanagh
Transformation
I haven’t written a single poem
in months.
I’ve lived humbly, reading the paper,
pondering the riddle of power
and the reasons for obedience.
I’ve watched sunsets
(crimson, anxious),
I’ve heard the birds grow quiet
and night’s muteness.
I’ve seen sunflowers dangling
their heads at dusk, as if a careless hangman
had gone strolling through the gardens.
September’s sweet dust gathered
on the windowsill and lizards
hid in the bends of walls.
I’ve taken long walks,
craving one thing only:
lightning,
transformation,
you.

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