Adam Zagajewski – Jardim de Luxemburgo

Adam Zagajewski – Jardim de Luxemburgo

Os prédios parisienses não temem nem o vento nem a imaginação
– são pesados pesos de papel,
a antítese dos sonhos.

Barcos brancos deslizam pelo rio, carregados de gente
que exige acenos de quem está na margem;
sua efervescência liquida o passado.

Um casal de turistas ricos salta de um táxi
em trajes reluzentes; são atendidos por garçons
de sobrecasacas que a moda jamais consegue mudar.

Mas o Jardim de Luxemburgo vai se esvaziando
e se transforma num imenso herbário mudo;

já não guarda lembrança daqueles que um dia
percorreram suas alamedas sem notar que haviam morrido.

Aqui viveu Mickiewicz, ali August Strindberg
se empenhou na busca pela pedra filosofal
que jamais encontraria.

Cai o crepúsculo. A noite, solene, taciturna e inquieta,
chega do oriente.
A noite vem da Ásia e não faz perguntas.

A estranheza é bela, uma fria alegria.
Luzes amarelas iluminam as janelas à margem do Sena
(algo verdadeiramente enigmático: as vidas alheias).

Eu sei – não há mais mistério aqui agora.
Mas há plátanos, praças, cafés, ruas acolhedoras,
e o luminoso olhar das nuvens que lentamente se apaga.

Trad.: Nelson Santander a partir da versão do poema em inglês traduzido por Clare Cavanagh

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Luxembourg Garden

Parisian apartment houses fear neither wind nor imagination
– they’re ponderous paperweights,
the antitheses of dreams.

White boats race along the river, filled with crowds
demanding greetings from those who stand on shore;
their effervescence liquidates the past.

A pair of wealthy tourists emerges from a cab
in gleaming garb; they’re served by waiters
wearing frock coats that fashion cannot change.

But the Luxembourg Garden grows empty now
and becomes a giant, mute herbarium;

it’s forgotten all those who once
strolled its paths and haven’t noticed they’re no longer living.

Mickiewicz lived here, and there August Strindberg
labored over the philosopher’s stone
he never found.

Dusk falls. Solemn night, taciturn and worried,
arrives from the east.
The night comes from Asia and doesn’t ask questions.

Foreignness is lovely, a cold joy.
Yellow lights illuminate the windows on the Seine
(something truly enigmatic: other people’s lives).

I know – there’s no mystery here now.
But there are plane trees, squares, cafés, friendly streets,
and the bright gaze of clouds that slowly dies.

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