Disseram que eu escapei num bote1
E me humilharam no inquérito. Mas vos digo:
Afundei, naquela noite, tão fundo quanto qualquer
Herói. Enquanto tremia sobre a água escura
Tornei-me gelo ao ouvir minha preciosa vida
Ruir num estrondo em um pandemônio de
Carrinhos de bebê, pianos, aparadores, guinchos,
Caldeiras explodindo e ragtime despedaçado. Agora me escondo
Em uma casa solitária à beira-mar
Onde a maré deposita brinquedos quebrados e caixas de chapéu
Silenciosamente à minha porta. As chuvas de
Abril, as flores de maio já nada significam para mim, nem a
Luz tardia de junho, quando meu jardineiro
Descreve para estranhos como o velho passa os dias na cama
Nas manhãs de brisa marítima, depois de noites de
Vento, usa sua cocaína e não recebe ninguém. Então é que
Me afogo outra vez com todos aqueles rostos
Vagos, perdidos, que jamais compreendi, minha pobre alma
Grita sob a luz das estrelas, meu coração
Arrebenta e rola como uma pedra.
Incluí-me em vossas lamentações.
Trad.: Nelson Santander
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- “After the Titanic” é um monólogo dramático em que Derek Mahon assume a voz de J. Bruce Ismay (1862–1937), presidente da companhia marítima White Star Line e um dos sobreviventes do naufrágio do RMS Titanic. Embora as investigações oficiais não tenham concluído que Ismay tenha agido de forma ilegal ou contrária aos regulamentos marítimos da época, ele foi duramente criticado pela imprensa e pela opinião pública por ter embarcado em um bote salva-vidas enquanto centenas de passageiros e tripulantes permaneceram a bordo do navio. Durante o restante de sua vida, sua imagem ficou associada à acusação de covardia e à culpa do sobrevivente. No poema, Mahon não procura reconstituir fatos históricos de maneira documental, mas imagina a consciência atormentada de Ismay anos após a tragédia, explorando temas como culpa, memória, isolamento e responsabilidade moral. ↩︎
After the Titanic
They said I got away in a boat
And humbled me at the inquiry. I tell you
I sank as far that night as any
Hero. As I sat shivering on the dark water
I turned to ice to hear my costly
Life go thundering down in a pandemonium of
Prams, pianos, sideboards, winches,
Boilers bursting and shredded ragtime. Now I hide
In a lonely house behind the sea
Where the tide leaves broken toys and hatboxes
Silently at my door. The showers of
April, flowers of May mean nothing to me, nor the
Late light of June, when my gardener
Describes to strangers how the old man stays in bed
On seaward mornings after nights of
Wind, takes his cocaine and will see no one. Then it is
I drown again with all those dim
Lost faces I never understood, my poor soul
Screams out in the starlight, heart
Breaks loose and rolls down like a stone.
Include me in your lamentations.
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