Katie Ford – Carpa

Katie Ford – Carpa

Depois de todos os dias e noites que passamos
com o Mensageiro das Estrelas1, com Dante,
com Platão, sua temperança
pintada como uma mulher que verte
água em uma taça, sem derramar,
depois da teoria das partículas e do tempo geológico deste quartzo
dourado sob o que já vagou e se perdeu,
compósitos de calcário calculados até o animal
que se deitou sobre ele e morreu em silêncio,

depois de ouvir como camelos levaram para longe os
pedaços do Colosso de Rodes, mostrando-nos como levar
e reconstruir nossos eus destruídos,

ouvindo que houve uma mão
que primeiro aprendeu a virar
um bebê no útero,

que havia, dentro de Michelangelo, um Isaias para esculpir
o Davi, a ideia, o que está soterrado
em nós que pode derrubar as enormidades,

depois de todas as visões e profecias que alargaram o coração,
vezes sem conta, verdadeiras ou não,

depois de aprender a afiar o aço reluzente —
a arma, a bomba que fabricamos,
e a aquarela pintada depois
da multidão atingida, traços finos
sobre um fundo lavado —
depois de tudo isso, ainda assim
nenhum de nós é capaz de conhecer o outro.

Certa vez, sob um céu de ferro, escutei
um pequeno ajuntamento de vozes.
Duas a duas, se separaram pelo campo
para desatar a murmuração intacta e escura de estorninhos
entre elas. O ritual de aproximação,
a esperança de que cada um não permaneça turista
diante da ruína separada, cinzelada do outro:

O indizível, ilegível perante nós —

é assim que os linguistas chamam os mortos, não é?

Mas como vai você? dizemos,
querendo dizer como você foi feito?
o que há de errado? o que
houve? e perguntamos: há quanto tempo você espera?
você está do meu lado? pode prometer ficar?
você manterá
a gravura nítida em minha rocha
e virá me visitar, seu nunca-conhecido?,

vai se inclinar sobre meu fantasma
como nos inclinávamos sobre as lagoas verdes do jardim japonês,
um aglomerado de lanternas se apagando acima de nós,
aos poucos, um cardume de carpas pausando na superfície,
deixando-nos olhar até o fundo,
até vermos que cada olho
era como uma rede amontoada na praia?

Exatamente como nossos olhos, não eram? todos acidentes, desperdícios,
todas as necessidades de salvação preenchidas e não preenchidas, as conchas trincadas,
as lâminas das algas arrancadas de suas boias, tudo preso aqui,
dentro de nós —
os sete que amamos, os seis que perdemos —
vidro-marinho — os vivos
e o humano, sozinho.

Trad.: Nelson Santander

  1. Trata-se do livro de Galileo Galilei de 1610, Sidereus Nuncius, que registrou suas observações telescópicas e revolucionou a astronomia. ↩︎

Koi

After all the days and nights we’ve spent
with Starry Messenger, with Dante,
with Plato, his temperance
painted as a woman who pours
water into a bowl but does not spill,
after particle theory and the geologic time of this quartz
gilded beneath the roaming gone,
composites of limestone calculated down to the animal
that laid upon it and quietly died,

after hearing how camels carted away the broken
Colossus of Rhodes, showing us how to carry
and build back our destroyed selves,

hearing there was once a hand
that first learned to turn
an infant right in the womb,

that there was, inside Michelangelo, an Isaiah to carve out
the David, the idea, the one buried
in us who can slay the enormities,

after all visions and prophecies that made the heart large,
once and again, true or untrue,

after learning to shave the gleaming steel down—
the weapon, the bomb we make,
and the watercolor made after
of the dropped-upon crowd, thin strokes
over a pale wash—
after all this, still
one of us can’t know another.

Once under an iron sky I listened
to a small assemblage of voices.
Two by two broke off into the field
to strip down the unbroken flock of starling dark
between them. The ceremony of the closing in,
the hope each to each might not stay tourists
before the separate, chiseled ruin of the other:

The unspeakable, illegible one before us—

this is what the linguists call the dead, isn’t it?

But how are you, we say,
meaning how have you been made,
what is wrong, what
happened, we ask, how long have you been waiting,
are you on my side, can you promise to stay,
will you keep
the etchings clear on my stone
and come visit me, your never-known,

will you lean over my ghost
how we leaned over the green pools of the Japanese garden,
a cluster of lanterns blowing out above us
wisp by wisp, a school of koi pausing at the surface,
letting us look all the way in
until we saw each eye
was like a net heaped on shore.

Just like our eyes, weren’t they? all accidents, wastes,
all saving needs filled and unfilled, the cracked shells,
the kelp fronds torn from their buoys, all caught here,
inside us—
the seven we loved, the six we lost—
seaglass the living
and the human, alone.

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