Michael Van Walleghen – Felicidade

Michael Van Walleghen – Felicidade

Felicidade

Chore pelas pequenas coisas que podiam alegrá-las1.
—Robert Frost, “Directive”

Melvin,
o grande collie
que vive na casa vermelha
no final de minha corrida diária
está feliz,
feliz em me ver
mesmo agora,
em fevereiro —
um mês de nuvens baixas
e neve derretendo lentamente.

Seu quintal
quase todo
virou lama —
mas e daí?

Hoje,
como se quisesse me agradar,
ele despedaçou
e espalhou
por toda parte
um balde plástico amarelo
da cor das forsítias
ou dos narcisos…

E agora,
num êxtase
lamacento
e estrábico,
ele pousou
suas duas patas dianteiras imundas
juntas
no cano superior
de sua cerca de arame meio caída —

babando um pouco,
a cauda
abanando furiosamente,
até que finalmente,
como se eu fosse o próprio anjo de Deus —

fulgurante,
ofuscante,
em chamas
com notícias da Ressurreição,
eu lhe dou um petisco
em vez disso.

E isso basta para Melvin —
que é sábio,
por eras inteiras
de evolução,
bem além de sua idade.

Pegue
o que puder,
esse é o seu lema…

E, realmente,
a propósito de bem-aventurança,
da felicidade
e do verdadeiro arrebatamento,
que santo
poderia nos dizer a metade disso?

Mesmo enquanto ele desce
de volta
na lama fria
e cheia de merda canina
que terá de habitar
dia após dia
por semanas a fio talvez
a não ser que congele…

ganindo agora,
dançando
nervosamente
enquanto me viro
novamente,
para deixá-lo ali

o mesmo hoje
que ontem —

um dos verdadeiros miseráveis
desta terra
cuja felicidade
é quase mais
do que posso suportar.

Trad.: Nelson Santander

  1. Uma tradução deste poema já foi publicada no blog: https://singularidadepoetica.art/2020/11/05/robert-frost-diretriz-poema/ ↩︎

Happiness

Weep for what little things could make them glad.
—Robert Frost, “Directive”


Melvin,
the large collie
who lives in the red house
at the end of my daily run
is happy,
happy to see me
even now,
in February—
a month of low skies
and slowly melting snow.

His yard
has turned almost
entirely to mud—
but so what?

Today,
as if to please me,
he has torn apart
and scattered
everywhere
a yellow plastic bucket
the color of forsythia
or daffodils . . .

And now,
in a transport
of cross-eyed
muddy ecstasy,
he has placed
his filthy two front paws
together
on the top pipe
of his sagging cyclone fence—

drooling a little,
his tail
wagging furiously,
until finally,
as if I were God’s angel himself—

fulgent,
blinding,
aflame
with news of the Resurrection,
I give him a biscuit
instead.

Which is fine with Melvin—
who is wise,
by whole epochs
of evolution,
beyond his years.

Take
what you can get,
that’s his motto . . .

And really,
apropos of bliss,
happiness
and the true rapture,
what saint
could tell us half as much?

Even as he drops
back down
into the cold
dog-shit muck
he’ll have to live in
every day
for weeks on end perhaps
unless it freezes . . .

whining now,
dancing
nervously
as I turn away
again,
to leave him there

the same today
as yesterday—

one of the truly wretched
of this earth
whose happiness
is almost more
than I can bear.

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