Quando os anos se alongaram no labor dos canaviais,
busquei uma esposa, escolhendo-a, enfim, por uma foto.
Tinha apenas quinze anos, uma noiva tímida, ainda menina,
envolta em um quimono desbotado, como eu, envolto em vento,
um homem de trinta, curtido pela lida nos verdes mares
de cana, minhas economias enfim suficientes para o casamento.
Antes disso, foi ao mundo vindouro que fiz meus votos –
arrancar da terra uma nova vida, deixar os campos
para poder olhar sem pesar das montanhas ao mar,
nunca mais falsear quem eu era numa fotografia,
como se fosse um caixeiro ou seleiro, a salvo dos ventos constantes,
a imagem que enviei um embuste à minha jovem noiva.
Era jovem, mas crescia a cada dia, minha nova noiva.
No cais, proferimos nossos votos, e eu a levei
à North Shore, suas montanhas dilaceradas pelos ventos,
abaixo delas os verdes campos
ondulantes de cana se estendendo até o mar,
paisagem que ninguém se importaria em fotografar.
Antes de partirmos, alguém tirou uma foto —
este lavrador e sua noiva de retrato, olhar cabisbaixo,
metade de sua idade, na cerimônia à beira do cais —
encenada contra mares de um cinza-ardósia
e pequenas ondas encrespadas pelos ventos,
rostos impassíveis, resignados à vida dura dos canaviais.
Estávamos fadados a jamais deixar os campos —
minha esposa deu à luz um filho que não fotografamos,
pois, antes que pudesse chorar, foi levado pelo vento
que chegou como a noiva que lhe estava prometida,
viajando do Além, por mares revoltos,
negando nossos sonhos mortais de uma vida melhor.
Ela mesma morreu um ano depois dos votos
e assim escapou enfim dos canaviais,
fantasma em fuga, ha-alele-hana, sobre os mares temíveis
que jamais se deixariam capturar numa fotografia,
de modo que, daí em diante, só a determinação seria minha noiva,
e meu manto de luto, um casaco de ásperos ventos.
Só o vento conhece minhas mágoas agora, os votos
que minha noiva e eu fizemos se perderam para sempre nos canaviais,
e esta fotografia é o único instante em que vivemos longe dos mares gelados da vida.
Trad.: Nelson Santander
Homage to a Picture Bride
When years were long with labor in the sugarfields,
I sought a wife, at last, choosing her from a photograph.
She was but fifteen, a shy child of a bride
wrapped in faded kimono, as I likewise was wrapped in wind,
a man of thirty, weathered by work in the green seas
of cane, my savings finally enough to take my wedding vows.
Before then, it was to the coming world that I made vows
to wrest a new life from the earth and leave the fields
so I might cast my eyes without sorrow from mountains to the sea,
never again to falsify who I was in a photograph
as though I were a clerk or a saddler, sheltered from the constant winds,
the image I’d sent, a deception to my young bride.
She was young but daily growing, my new bride.
We stood on the pier and took our vows,
and I led her to the North Shore, its mountains torn by winds,
below them the rippling green fields
of cane stretching all the way to the sea,
a landscape no one would care to photograph.
Before we left, someone took a photograph—
this laborer and downcast picture bride
half his age at their dockside ceremony of vows—
staged before a background of slate-gray seas
and the small curls of waves tossed by winds,
impassive faces resigned to a hard life in the canefields.
We were destined never to leave the fields—
my wife gave birth to a son we did not photograph
as, before he could cry, he was taken by the wind
that came betrothed as his own promised bride,
journeying from the Afterworld over storm-tossed seas,
our mortal dreams of a better life all but disavowed.
She herself died within a year of our vows
and so finally escaped the sugarfields,
a ghost in flight, ha-alele-hana, over the dread seas
that never would be captured in a photograph,
so that, ever after, only resolve would be my bride
and my mourning cloak a coat of harsh winds.
Only the wind knows my sorrows now, whatever vows
my bride and I made are forever lost in the sugarfields,
this photograph the one moment we lived apart from life’s cold seas.

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