Voltamos ao supermercado
onde um dia nos imaginamos
fazendo amor pelos corredores
entre mangas, kiwis
e abacaxis,
mas mal ousamos sorrir,
embora eu a sustente com o olhar,
enquanto colocamos no carrinho uma caixa
de famotidina, frascos
de álcool em gel
e água esterilizada,
nossos beijos contidos
como brotos verdes
ou promessas por vir —
ela não quer me passar
as drogas da químio,
e eu não quero lhe dar
um resfriado,
e assim seguimos, transformadas
de recém-casadas risonhas
em esposas amadurecidas
que se apoiam uma na outra,
percorrendo os corredores,
escolhendo kiwis doces e maduros,
e queijo da Espanha, como um agrado,
empurrando um carrinho pesado —
depois de limpar
cuidadosamente sua alça.
Trad.: Nelson Santander
The change
We return to the store
where once we imagined
making love in the aisles
between the mangos, kiwis
and pineapples,
but barely dare a smile,
though I hold her with a look,
as we load a case
of famotidine, tubs
of hand sanitizer
and sterilized water,
our kisses held back
like green buds
or promises to come –
she doesn’t want
to pass the chemo drugs onto me,
I don’t want
to give her a cold,
and so we go, morphed
from giggling honeymooners
into seasoned wives
who lean on each other,
strolling along corridors,
choosing sweet ripe kiwis,
cheese from Spain, for treats,
pushing a heavy shopping cart –
having carefully
wiped the handles clean.

Deixe um comentário