Louise Glück – Uma fantasia

Vou lhe dizer uma coisa: todos os dias
pessoas morrem. E isso é só o começo.
Todos os dias, nas funerárias, nascem novas viúvas,
novos órfãos. Eles se sentam com as mãos cruzadas,
tentando decidir sobre esta nova vida.

Depois eles estão no cemitério, alguns deles
pela primeira vez. Eles têm medo de chorar,
às vezes de não chorar. Alguém se inclina e
diz-lhes o que fazer a seguir, o que pode significar
dizer algumas palavras, às vezes
jogando terra na cova aberta.

E depois disso, todos voltam para casa,
que subitamente está cheia de visitantes.
A viúva senta-se no sofá, muito majestosa,
e então as pessoas fazem fila para se aproximar dela,
às vezes pegam sua mão, às vezes a abraçam.
Ela encontra algo para dizer a todos,
agradece-lhes, agradece-lhes por terem vindo.

Em seu íntimo, ela quer que eles vão embora.
Ela quer estar de volta ao cemitério,
de volta à enfermaria, ao hospital. Ela sabe
que isso não é possível. Mas é sua única esperança,
o desejo de voltar para trás. E só um pouquinho,
não até o casamento, o primeiro beijo.

Trad.: Nelson Santander

A fantasy

I’ll tell you something: every day
people are dying. And that’s just the beginning.
Every day, in funeral homes, new widows are born,
new orphans. They sit with their hands folded,
trying to decide about this new life.

Then they’re in the cemetery, some of them
for the first time. They’re frightened of crying,
sometimes of not crying. Someone leans over,
tells them what to do next, which might mean
saying a few words, sometimes
throwing dirt in the open grave.

And after that, everyone goes back to the house,
which is suddenly full of visitors.
The widow sits on the couch, very stately,
so people line up to approach her,
sometimes take her hand, sometimes embrace her.
She finds something to say to everbody,
thanks them, thanks them for coming.

In her heart, she wants them to go away.
She wants to be back in the cemetery,
back in the sickroom, the hospital. She knows
it isn’t possible. But it’s her only hope,
the wish to move backward. And just a little,
not so far as the marriage, the first kiss.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s