Pierre Corneille – Estrofes para a bela marquesa

Marquesa, se minha face
A ti parece mais velha,
Espera que o tempo passe
Que verás a que te espelha.
O tempo, contra o vigor
Das coisas belas, protesta,
E há de te fanar a flor
Tal qual enrugou-me a testa.
Noite e dia tudo flui,
Rege-nos a mesma lei,
Se veem em ti o que já fui,
Tu serás o que tornei.
Há, contudo, um certo encanto
Que, dentro de mim, sobeja,
Maior mesmo do que o espanto
Do tempo quanto troveja.
Tens o encanto que hoje apraz,
Mas desprezas este meu
Que pode valer-te mais
quando fenecer o teu.
Este encanto há de reaver
Dos teus olhos a doçura
E, em mil anos, fazer crer
No prazer que ainda depura.
Se o futuro dá certeza
De que alguém há de me ler,
Lembrarão de tua beleza
Somente se eu descrever.
Mesmo se, bela marquesa,
um velho lhe causa horror,
não lhe poupe gentileza
se ele tiver meu valor.

Trad. Marcelo Diniz

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