Eu me pergunto como tudo começou, essa história
de ver a vida passar num relance diante dos olhos
enquanto você se afoga, como se o pânico, ou o ato da submersão,
pudesse sacudir o tempo a tamanha compressão, esmagando
décadas na morsa de seus desesperados segundos finais.
Depois de cair de um navio a vapor ou ser arrastado
por uma enxurrada, você não esperaria
uma retrospectiva mais tranquila, mão invisível
folheando as páginas de um álbum de fotografias —
você montado num pônei ou soprando velas sob um chapéu de festa?
Que tal um curta de animação, uma apresentação de slides?
Sua vida expressa em um ensaio, ou em uma única foto-modelo?
Não seria qualquer outro formato melhor do que esse súbito flash?
Toda sua existência explodindo na sua cara
numa detonação biográfica capaz de chamuscar sobrancelhas —
nada parecido com os três grandes volumes que você imaginou.
Os sobreviventes querem que acreditemos numa súbita claridade
aqui, algum raio de verdade rasgando a água,
uma Luz derradeira antes que todas as luzes se apaguem,
despontando sobre você com todo seu peso megalítico.
Mas se algo de fato piscar diante dos seus olhos
enquanto você afunda, provavelmente será um peixe,
um borrão rápido de prata curva disparando para longe,
sem nada a ver com sua vida ou sua morte.
A maré o levará, ou o lago o acolherá por completo
enquanto você afunda rumo à desordem de algas do fundo,
deixando para trás o que já havia esquecido,
a superfície, agora coberta pelo alto cortejo das nuvens.
Trad.: Nelson Santander
The Art of Drowning
I wonder how it all got started, this business
about seeing your life flash before your eyes
while you drown, as if panic, or the act of submergence,
could startle time into such compression, crushing
decades in the vice of your desperate, final seconds.
After falling off a steamship or being swept away
in a rush of floodwaters, wouldn’t you hope
for a more leisurely review, an invisible hand
turning the pages of an album of photographs-
you up on a pony or blowing out candles in a conic hat.
How about a short animated film, a slide presentation?
Your life expressed in an essay, or in one model photograph?
Wouldn’t any form be better than this sudden flash?
Your whole existence going off in your face
in an eyebrow-singeing explosion of biography-
nothing like the three large volumes you envisioned.
Survivors would have us believe in a brilliance
here, some bolt of truth forking across the water,
an ultimate Light before all the lights go out,
dawning on you with all its megalithic tonnage.
But if something does flash before your eyes
as you go under, it will probably be a fish,
a quick blur of curved silver darting away,
having nothing to do with your life or your death.
The tide will take you, or the lake will accept it all
as you sink toward the weedy disarray of the bottom,
leaving behind what you have already forgotten,
the surface, now overrun with the high travel of clouds.

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