Plaisir d’Amour1
Primavera
Meu pai
Contra as vitórias da idade
Não se dava por vencido
Tingia os cabelos
E quando minha mãe chamava
Dizia que não estava.
Minha mãe também
Lutava contra os anos
Mas em suas preces dominicais
Pedia perdão a Deus.
Meu pai dizia que Deus não existia
“E ela sabe muito bem disso”
Minha mãe sorria.
Tinha afinado as sobrancelhas
E usava uma saia transparente
Com o colete combinando.
“Ele gosta mais de calcinhas francesas”, dizia
“Vou mandar benzer”.
Meu pai se enfurecia.
Gostava de mulheres jovens, dizia,
E não alguém meio morta.
Comprou um violão de segunda mão que não sabia tocar
E cantava a única canção que conhecia —
Plaisir d’Amour.
Verão
Quando veio o verão
Meu pai saiu de casa
Amarrou uma fita no cabelo
E vestiu um caftã.
Minha mãe o viu descendo a rua:
“Vai quebrar o pescoço com isso”, disse —
“Como se eu me importasse”.
Ele rodou o mundo
E conheceu um guru no Tibete.
“Também dormi com mulheres”, escreveu
“E nenhuma tinha metade da minha idade”.
Minha mãe atirou a carta ao fogo —
“O maldito mentiroso – mal sobe as escadas
Com toda essa idade”.
Ela queimou o sutiã
E escreveu com batom num cartão:
“Tenho dois marinheiros da Martinica
Aqui em casa.
Eles têm os olhos dos seus filhos”.
Meu pai nem parou para responder
Voltou direto pra casa.
Sentado junto à lareira
Disse que havia mentido
Nunca dormira com ninguém além dela.
Minha mãe disse que nunca mentira —
Jogara os marinheiros na rua uma hora antes dele chegar.
O coração do meu pai nunca mais seria o mesmo —
Plaisir d’Amour.
Outono
Durante os dias de outono
Meu pai sentia as folhas
Arderem nos cantos da mente.
Minha mãe, um ano mais nova,
Parecia jovem e radiante,
Os marinheiros do porto da Martinica
Tinham beijado sua face.
Ele revirou a casa
E escondido num baú sob a cama
Encontrou seu violão de segunda mão.
Encontrou a saia transparente
Com o colete combinando.
“Você usava calcinhas francesas”, disse,
“Eram minhas favoritas”.
“Dei todas”, exclamou minha mãe,
“A marinheiros e capitães do mar.
Não estou meio morta
Sirvo para qualquer cama — inclusive a sua”.
Ela pôs um boné de marinheiro
E dançou pelo quarto
Enquanto meu pai dedilhava o violão de segunda mão.
Ele fez a cama,
Vestiu o caftã,
Amarrou a fita no cabelo.
“Vou tocar mais uma vez”, ele disse
“E você canta”.
Ela cantou a única canção que conheciam —
Plaisir d’Amour.
Inverno
Aos sessenta e quatro,
Morreu minha mãe
Aos sessenta e cinco,
Meu pai.
Comentário de um vizinho
Que estava lá:
“Pareciam ter vinte”.
Plaisir d’Amour
Trad.: Nelson Santander
- O título “Plaisir d’Amour” (Prazer do Amor) faz referência direta a uma das mais famosas canções de amor francesas, composta em 1784 por Jean-Paul-Égide Martini, baseada num poema de Jean-Pierre Claris de Florian. O verso mais célebre da canção — “O prazer do amor dura apenas um momento; a dor do amor dura a vida inteira” — serve como pano de fundo irônico e melancólico para o poema de Galvin. Na obra, a música é a “única canção” que o pai conhece, simbolizando tanto a tentativa desesperada do casal de reter a juventude e a paixão quanto a inevitável passagem do tempo, tema central da poesia do autor irlandês. ↩︎
Plaisir d’Amour
Spring
My father
Against the victories of age
Would not concede defeat
He dyed his hair
And when my mother called
He said he wasn’t there.
My mother, too
Fought back against the years
But in her Sunday prayers
Apologised to God.
My father said there was no God
“And that one knows it to her painted toes”
My mother smiled.
She’d plucked her eyebrows too
And wore a see-through skirt
With matching vest.
“He likes French knickers best,” she said
“I’ll have them blest.”
My father raged.
He liked his women young, he said
And not half-dead.
He bought a second-hand guitar he couldn’t play
And sang the only song he knew –
Plaisir d’Amour.
Summer
When summer came
My father left the house
He tied a ribbon in his hair
And wore a Kaftan dress.
My mother watched him walking down the street
“He’ll break his neck in that,” she said –
“As if I care.”
He toured the world
And met a guru in Tibet.
“I’ve slept with women too,” he wrote
“And they not half my age.”
My mother threw his letter in the fire –
“The lying ghett – he couldn’t climb the stairs
With all his years”
She burned her bra
And wrote with lipstick on a card –
“I’ve got two sailors in the house
From Martinique.
They’ve got your children’s eyes.”
My father didn’t wait to answer that
He came back home.
And sitting by the fire
He said he’d lied
He’d never slept with anyone but her.
My mother said she’d never lied herself –
She’d thrown the sailors out an hour before he came.
My father’s heart would never be the same –
Plaisir d’Amour.
Autumn
Through autumn days
My father felt the leaves
Burning in the corners of his mind.
My mother, who was younger by a year,
Looked young and fair,
The sailors from the port of Martinique
Had kissed her cheek
He searched the house
And hidden in a trunk beneath the bed
My father found his second-hand guitar.
He found her see-through skirt
With matching vest.
“You wore French knickers once,” he said
“I liked them best.”
“I gave them all away,” my mother cried
“To sailors and to captains of the sea.
I’m not half-dead
I’m fit for any bed – including yours.”
She wore a sailor’s cap
And danced around the room
While father strummed his second-hand guitar.
He made the bed,
He wore his Kaftan dress
A ribbon in his hair.
“I’ll play it one more time,” he said
“And you can sing.”
She sang the only song they knew –
Plaisir d’Amour.
Winter
At sixty-four
My mother died
At sixty-five
My father.
Comment from a neighbour
Who was there:
“They’d pass for twenty.”
Plaisir d’Amour

Deixe um comentário