Meu Senhor, eu gostava de geleia de morango
E da escura doçura do corpo de uma mulher.
Também de vodca bem gelada, arenque no azeite,
Aromas: de cravo, de canela.
Então, que profeta sou eu? Por que o espírito
Haveria de visitar um homem assim? Tantos outros
Foram justamente escolhidos, dignos de confiança.
E em mim, quem acreditaria? Pois viam
Como me atiro à comida, esvazio copos
E olho com gula para o pescoço da garçonete.
Com defeitos e consciente disso. Desejando a grandeza,
Capaz de reconhecê-la onde quer que esteja,
E, no entanto, de visão não inteiramente clara,
Sabia o que resta aos menores como eu:
Um festim de efêmeras esperanças, uma assembleia de soberbos,
Um torneio de corcundas, literatura.
Trad.: Nelson Santander, a partir da versão inglesa de Czesław Miłosz e Robert Hass, cotejada com o original em polonês.
A Confession
My Lord, I loved strawberry jam
And the dark sweetness of a woman’s body.
Also well-chilled vodka, herring in olive oil,
Scents, of cinnamon, of cloves.
So what kind of prophet am I? Why should the spirit
Have visited such a man? Many others
Were justly called, and trustworthy.
Who would have trusted me? For they saw
How I empty glasses, throw myself on food,
And glance greedily at the waitress’s neck.
Flawed and aware of it. Desiring greatness,
Able to recognise greatness wherever it is,
And yet not quite, only in part, clairvoyant,
I knew what was left for smaller men like me:
A feast of brief hopes, a rally of the proud,
A tournament of hunchbacks, literature.

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