Encarei as ruínas, os restos mortais
agora sob a terra, uma multidão
reunida e respirando com
tristezas indiscerníveis, luz
de outra luz, distante
e sem explicação. Em algum lugar invisível
o oceano se aprofundava então; e agora,
em outro oceano, as nadadeiras negras
dos peixes ósseos obscurecendo
o piso mais fundo, carcaças de moluscos
assentando-se, lançando um último véu de areia,
incapazes de se fechar novamente. Ao meu lado, uma mulher
e os dezessete pinos que foram necessários para fixar
seu membro, para manter cada parte banhada em sangue.
*
No livro sobre a antiga efemérida
que vive apenas quatrocentos minutos
e por isso recebe o nome de ephemeral,
eu não compreendia por que as veias dispostas
nas lâminas translúcidas das asas, incrivelmente
frágeis, não eram varadas pelo vento durante seu voo
de meio dia. Ou como esse design sustentou a espécie
por toda a antiguidade, entre cavalos tombando,
tempestades de granizo e confusas difrações de luz.
*
Se me lembro bem, o que falta
desabou de repente, não em ruas,
mas em fileiras seccionadas entre sol e sombra,
onde a sombra caía aqui, e o sol ali,
onde o toldo erguido por mastros terminava. O calor
e a poeira não desciam em funil
até os condenados que lutavam
até o animal tomá-los por inteiro? Não ficou ao menos um
perfeitamente imóvel?
*
Eu disse a mim mesma: para além do meu marido, há árvores estranhas
crescendo em uma das sete colinas.
Parecem bonsais cuidadosamente cultivados, mas
enormes, com ocos inalcançáveis.
Ele tira fotos para nossos álbuns de capa preta,
finas folhas de seda indiana separando uma imagem da outra.
Não há evidência científica de que a consciência
dure fora do corpo. Acho que, quando eu morrer,
morrerei por completo.
*
Mas não desabou de uma vez.
Soube-se que há uma falha sob Roma
que abalou as paredes do teatro
tremor após tremor. Depois que o império caiu,
a arena ficou abandonada,
e plantas exóticas espalharam uma vegetação descontrolada,
suas sementes trazidas da Ásia e da África, semeadas por acaso
nos dejetos das feras.
Como nossas perguntas, que se esvaziam e depois doem,
o vaso se encheu de faunas irreconhecíveis.
*
Quão grande é a escuridão em que tateamos,
disse William James, que não se referia à terra, mas à mente,
dividida em suas cavernas e alicerces, de onde assiste
ao seu grande e solitário combate.
E então, quando tudo termina,
quando aqueles que povoam sua vida retornam
a seus quartos de cortinas cerradas e se deitam sem você,
você está só, você
é presa.
*
Quando as efeméridas emergem, é em grandes enxames
dos lagos onde viveram sob peles ninfais
durante muitas mudas. Por fim,
uma pele aveludada se desprende e o que as protegia
desaparece. Sobre a água não há
nada de que possam se alimentar —
nem sequer procuram, senão umas às outras.
Formam enxames apressados naquela hora faminta e breve
e acasalam-se por inteiro. Quando tudo termina, diz-se
que as moscas moribundas se reúnem sob luzes de barcos
ou postes de rua e morrem ali lentamente,
caindo em uma revoada que chamam de aleluia1.
*
Nada deseja ruir, mas isto desejou,
construído para o abate, com arcos abertos por onde se podia subir,
linhas de janelas sem vidro no alto, roldanas
elaboradas erguendo os animais em plataformas
para fora da escuridão dos labirintos.
Quando se é palco de tanta dor, só resta rezar
para ser abandonado. Quando o abandono é
algo mais que isso — beleza e terror
aos olhos de toda testemunha, e, de repente,
você já não está ali.
Trad.: Nelson Santander
- No original, “snowfall” (nevasca) descreve a queda em massa das efeméridas após o acasalamento, imagem natural nos climas frios do hemisfério norte. Aqui, optou-se por aleluia, nome popular das efeméridas em várias regiões do Brasil, sobretudo no interior paulista, onde o aparecimento desses insetos costuma coincidir com o período pascal — momento simbólico de morte e renascimento. A tradução, portanto, mantém a ideia de queda luminosa e coletiva, mas incorpora deliberadamente uma camada cultural e espiritual brasileira: a “chuva de aleluias”, vista como presságio ou bênção. ↩︎
Colosseum
I stared at the ruin, the powder of the dead
now beneath ground, a crowd
assembled and breathing with
indiscernible sadnesses, light
from other light, far off
and without explanation. Somewhere unseen
the ocean deepened then and now
into more ocean, the black fins
of the bony fish obscuring
its bottommost floor, carcasses of mollusks
settling, casting one last blur of sand,
unable to close again. Next to me a woman,
the seventeen pins it took to set
her limb, to keep every part flush with blood.
*
In the book on the ancient mayfly
which lives only four hundred minutes
and is, for this reason, called ephemeral,
I couldn’t understand why the veins laid across
the transparent sheets of wings, impossibly
fragile, weren’t blown through in their half-day
of flight. Or how that design has carried the species
through antiquity with collapsing
horses, hailstorms and diffracted confusions of light.
*
If I remember correctly what’s missing
broke off all at once, not into streets
but into rows portioned off for shade as it
fell here, the sun there
where the poled awning ended. Didn’t the heat
and dust funnel down
to the condemned as they fought
until the animal took them completely? Didn’t at least one stand
perfectly still?
*
I said to myself: Beyond my husband there are strange trees
growing on one of the seven hills.
They look like intricately tended bonsais, but
enormous and with unreachable hollows.
He takes photographs for our black folios,
thin India paper separating one from another.
There is no scientific evidence of consciousness
lasting outside the body. I think when I die
it will be completely.
*
But it didn’t break off all at once.
It turns out there is a fault line under Rome
that shook the theater walls
slight quake by quake. After the empire fell
the arena was left untended
and exotic plants spread a massive overgrowth,
their seeds brought from Asia and Africa, sewn accidentally
in the waste of the beasts.
Like our emptying, then aching questions,
the vessel filled with unrecognizable faunas.
*
How great is the darkness in which we grope,
William James said, not speaking of the earth, but the mind
split into its caves and plinth from which to watch
its one great fight.
And then, when it is over,
when those who populate your life return
to their curtained rooms and lie down without you,
you are alone, you
are quarry.
*
When the mayflies emerge it is in great numbers
from lakes where they have lived in nymphal skins
through many molts. At the last
a downy skin is shed and what proofed them
is gone. Above water there is
nothing for them to feed on—
they don’t even look, except for each other.
They form hurried swarms in that starving, sudden hour
and mate fully. When it is finished it is said
the expiring flies gather beneath boatlights
or lampposts and die under them minutely,
drifting down in a flock called snowfall.
*
Nothing wants to break, but this wanted to break,
built for slaughter, open arches to climb through,
lines of glassless squares above, elaborate
pulleys raising the animals on platforms
out of the passaged darkness.
When one is the site of so much pain, one must pray
to be abandoned. When abandonment is
that much more—beauty and terror
before every witness and suddenly
you are not there.

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