Rui Tavares – Assistindo à derrocada da civilização poética

Rui Tavares – Assistindo à derrocada da civilização poética

Assistindo à derrocada da civilização poética

O mais interessante de acompanhar, como faço desde o início, as guerras culturais dos últimos anos sobre “A Odisseia” (no caso, tanto a tradução para inglês de Emily Wilson quanto o filme de Christopher Nolan) é ver tanta gente discutindo nas redes sociais, tantas vezes em prosa chula, aquilo que pertence a uma civilização que em grande medida acabou: a da poesia.
Durante um par de milênios, quando a humanidade queria dizer qualquer coisa de verdadeiramente importante, dizia-o em poesia.

A poesia era especificamente humana —os pássaros podem cantar— pois associada à memória, tanto individual quanto coletiva, que é o que nos permite construir religiões e cosmogonias, reinados e dinastias, estilos e estados, impérios e rebeliões. Ao mesmo tempo, a poesia elevava-nos para além do humano.

A razão pela qual as redes sociais discutem “A Odisseia” não é por causa de “A Odisseia”. É porque supostamente estão discutindo a civilização ocidental, e discutir a civilização ocidental proclamando ao mesmo tempo a sua superioridade e a sua decadência é, desde pelo menos Oswald Spengler, o combustível principal de projetos autoritários.

Primeiro postula-se que há só um certo tipo de Ocidente; depois que ele está em risco devido a elementos apresentados como seus inimigos. Para além disso, as redes sociais da extrema direita anglo-saxônica, que tanto arrancaram as vestes por causa de uma tradução de “A Odisseia” feita por uma mulher ou de alguns atores não-brancos numa versão cinematográfica, não querem saber de “A Odisseia” para nada.

Se quisessem, poderiam começar questionando se a Grécia Antiga pode sequer ser considerada parte do Ocidente, uma vez que nunca se pensou como tal. Podemos discutir até de madrugada essa ideia. O que é indiscutível, isso sim, é que o mundo de que Ulisses fez parte é o da Civilização Poética.

É que os poemas homéricos não são meramente o descritor de uma civilização. Eles são o criador de uma civilização. O mundo que Aquiles e Ulisses legaram não foi só um mundo em que se partilhavam determinados tipos de comidas, roupas, hábitos e dialetos.

Pouco a pouco, foram partilhando os próprios versos, personagens e histórias dos poemas. Não foi na civilização (Ocidental ou outra, até porque a Grécia Antiga tinha pelo menos tanto de Oriental quanto de Ocidental) que a Odisseia e a Ilíada se formaram. Foram a Odisseia e a Ilíada que formaram a sua própria civilização.

E qual foi ela? Aquela em que ser civilizado era citar os poemas ou imitar os poemas ou roubar a ideia de fazer um poema igual àqueles. Quando foi preciso justificar Roma, Virgílio fez “A Eneida”. Dante e “A Divina Comédia” criam a Itália tardo-medieval e levam-na até ao Renascimento. Já havia o Reino de Portugal antes de Camões, mas é com Camões que se cristaliza uma determinada ideia dos “lusíadas” enquanto nação.

E por aí adiante. No século 19, as independências americanas tinham poetas e poesia. As revoltas europeias também. E pelo século 20 adentro continuou a haver poesia.

E hoje? Ainda há poesia, mas já não somos uma civilização da poesia, que já não é decorada nem declamada nem proclamada. Resta saber o que virá.

Rui Tavares, Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de Agora, Agora e Mais Agora

Folha de São Paulo, 18.08.2026

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3 respostas a “Rui Tavares – Assistindo à derrocada da civilização poética”

  1. Embora o assunto desperte interesse, é bem complicado isso de declarar o fim da poesia (e inclusive contraditório com o 3.º parágrafo do texto).

    Vejo ainda a poesia muito presente em canções, em musicais, em saraus, em Blogs como este e, também, nos livros (de prosa e de poesia).

    1. Paulo, acho que é justamente aí que está o que mais me agradou no texto. Claro que a poesia não morreu — este blog seria uma ocupação ainda mais excêntrica do que já é se eu acreditasse nisso. 😄 Ela continua nas canções, nos livros, nos saraus, aqui e em muitos outros lugares.

      Mas continua **nichada**. Poucos a leem; menos ainda a entendem ou se deixam verdadeiramente afetar por ela. Neste nosso mundo cada vez mais cínico, a poesia respira, sim — por aparelhos, talvez, mas respira. E, no que depender do Singularidade, continuará respirando.

      O que me parece difícil contestar é justamente a conclusão de Tavares: ainda há poesia, mas já não somos uma **civilização da poesia**. Ela deixou de ser decorada, declamada, proclamada, de ocupar o centro da nossa experiência coletiva. E talvez seja essa perda, mais do que qualquer suposta morte da poesia, que torne o texto tão melancolicamente certeiro.

  2. Tenho a sensação, Nelson, de que a perda talvez tenha sido uma migração.

    Atualmente, de fato, não se renovou uma grande geração nova de poetas nacionais, mas todos acabam conseguindo encontrar a poesia de muitas formas e em variados locais.

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