Freya Bantiff – Deus, a Baleia

Freya Bantiff – Deus, a Baleia

Às vezes imagino que o sol, ao bater o meio-dia, despenca
num só movimento de mão e me fulmina. Confessa teu crime:
o meu é amar como o aprendiz de artesão
que nunca suja as mãos no ofício. O do meu pai é discutir.
No debate sobre o do relojoeiro divino, ele enumera
vírus em mutação, vermes parasitas, os ensaios
da extinção, e eu digo que, se Deus existe, talvez
seja uma baleia. Insondável e desnorteante. Sem engrenagens,
sem dedos ágeis. Apenas este Deus de sangue quente, espesso de gordura,
numa rota migratória que não consigo seguir. Talvez porque,
se Deus cantasse uma canção, estou certo de que ela percorreria
vastas distâncias. Seria pacífica

como o choro e, se as baleias pudessem chorar, Deus choraria.
Dizem que Deus viu o mundo e era bom, mas isso é
a onisciência emaranhada em redes fantasmas, emergindo
por entre manchas de petróleo, faminta por sustento num mar
levado à fervura. Investimos contra Deus a 25 nós
e Deus engole tudo – nossa solidão e escovas de dentes,
amarguras e sandálias partidas, de modo que quando elevamos
preces que florescem como plâncton, Deus já não tem espaço
para digeri-las, torna-se surdo a tudo exceto ao sonar militar,
às prospecções sísmicas e a isto: o relógio encharcado,
a pilha vazando, o alarme soando nas entranhas de Deus.

Trad.: Nelson Santander

God the Whale

Sometimes I imagine the sun striking midday will drop
in a hand’s motion and smite me. Confess your crime:
mine is to love like the craftsman’s apprentice
who never dirties her hands in acting. My dad’s is arguing.
In the debate about the divine watchmaker, he lists
mutating viruses, parasitic worms, the test runs
of extinction and I say if God exists, I think they might
be a whale. Unfathomed and wildering. No cogs
and quick fingers. Just this warm-blooded, blubbered God
on a migration path I can’t follow. Perhaps this is because
if God sung a song, I am certain it would cover
vast distances. It would be peaceful

as weeping and if whales could cry, God would.
They say God saw the world and it was good but this is
omniscience tangled in ghost gear, surfacing
through oil slicks, starving for sustenance in a sea
brought to simmer. We barrel into God at 25 knots
and God swallows it – our loneliness and toothbrushes,
bitterness and broken sandals, so when we send up
plankton bloom prayers God has no room
to stomach them, becomes deaf to all but military sonar,
seismic surveys and this: the waterlogged clock,
the leaking battery, the alarm ringing in God’s gut.

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