No
sono nossas mãos se encontram. Lá fora,
a rua, pavimentada com tampas de garrafas — ontem
um carro estacionado reluzia, agora — mero caleidoscópio
de cacos de vidro verde. Você murmura
de um sonho, sinto
a noite pressionar meu peito, como a terra
calcando os mortos de volta à terra. Se tivéssemos
quinhentos anos para resolver isso
se depois de tanto tempo
nos lembrássemos, se ainda nos importássemos, se
tivéssemos dedos para cavar, se houvesse pás,
poderíamos nos encontrar, sangue
comprimido em rubis, pulmões em ardósia,
dedos amarelados, azul vazando
de seus olhos, meus sapatos, lado
a lado sob a janela,
como se eu tivesse simplesmente
esvaído de dentro deles, os seus,
rigidamente alinhados, como se você tivesse lutado.
Trad.: Nelson Santander
Five Hundred Years
In
sleep our hands find each other. Outside,
the street, paved with bottlecaps—yesterday
a parked car glistened, now—a mere scatter
of green shattered glass. You murmur
from a dream, I feel
night press on my chest, like the earth
tamping the dead back into earth. If we had five
hundred years to work this out,
if after all that time
we remembered, if we still cared, if we
had fingers to dig, if there were shovels,
we could find each other, blood
compressed to rubies, lungs to slate,
fingers gone yellow, blue leaking
from your eyes, my shoes, side-
by-side beneath the window
as if I had simply
disintegrated out of them, yours,
toe-to-heel, as though you struggled.
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