Katie Ford – A forma do que somos

Katie Ford – A forma do que somos

Talvez nossa difícil solidão
não nos tenha sido dada
mas herdada por engano,
como uma teoria primitiva do mundo
em que toda criação era um único sol,
em que humanos e árvores
e a garça branca curvada para comer
não eram formas, mas cavernas
esculpindo aquela luz. Pompéia foi descoberta
sob calcificação de cinzas
porque alguns vazios pareciam humanos.

Da mesma forma, por vezes, um metro e meio de Nagasaki
ficava menos carbonizado, ali onde os corpos
haviam absorvido tudo o que podiam. Uma mancha fria esverdeou
o oceano naquele dia, os peixes
urticantes desceram como fileiras de sinos
baixados devagar de seus cordames — largados, abandonados
como a mente que deriva longamente, afastando-se
para além das crenças que não podem se sustentar.

Quando estive naquela cidade americana, sinos
no interior das muralhas ainda dobravam, não
por nós, mas por sua própria morte,
para que viesse logo, e depressa.
Por favor, digam-me que estou enganada
sobre a impermanência,
que estou enganada por pensar que não há
nada inquebrável e crível nessa terra.

Trad.: Nelson Santander

The Shape of Us

Perhaps our difficult loneliness
was not given to us
but was ours by mistake
like an early theory of the world
in which all creation was a single sun,
in which humans and trees
and the white heron bent to feed
were not forms but caverns
cutting into that light. Pompeii was discovered
beneath calcifications of ash
because certain hollows looked human.

Likewise every so often five feet of Nagasaki
was less charred where the bodies
had absorbed all they could. A cold spot greened
the ocean that day, the stinging
fish descended like rows of bells
let slowly down from their ropes—let down, let go
as the mind drifts long, drifts
far from beliefs that cannot hold.

When I stood in the American city, bells
inside the walls wore on, not ringing
for us but for their own death,
that it might come now, and quickly.
Something please tell me I’m wrong
about impermanence,
wrong there is no unbroken believable thing
on this earth.

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