George Drew – Abençoado

George Drew – Abençoado

Deitado na maca, aguardando
que os químicos inundassem seu corpo,
Jimmie Crocket poderia ter sido
o homem que passa sob um viaduto
que, assim que ele chega ao outro lado,
desaba e cinquenta pessoas morrem.
Quando apertaram as tiras de couro
e introduziram os cateteres em seus braços,
ele estava tão composto, tão desprovido de rancor
que ele próprio devia sentir-se abençoado.
Ao contrário de muitos, não sujou as calças,
não implorou um favor colossal a Deus,
não barganhou com Satanás, não suplicou,
nem sequer precisou de auxílio físico
ao caminhar até a câmara, entrar
e, por seus próprios meios, subir à maca.
Mais cedo ainda ele devorara sua última refeição,
brincara com os guardas e tocara
os maiores sucessos de Johnny Cash até o amanhecer.
Para nós, era como uma mariposa
que vimos uma vez nas Montanhas Brancas,
uma mariposa morta, marrom, estendida como fino
pergaminho sobre uma espuma branca, girando
em círculos, arremessada ao final de cada volta
pela corrente, impedida, vez após vez,
de ser tragada pelo furioso fluxo de água
que se precipita sobre a borda das rochas,
rumo à aniquilação absoluta
não só de seu ser, mas de sua beleza.
Jimmie Crocket poderia ter sido aquela mariposa,
poderia ter pensado, como ela, que seria puxado
de volta do duro e incessante vácuo do esquecimento,
como ela, salvo no último instante possível.
Momentos antes de morrer, Jimmie olhou
para a equipe de contenção, para o diretor,
o médico assistente, as testemunhas
que se agitavam do lado de fora da câmara e
para o pastor enquanto ele falava
sobre o vale da sombra da morte.
A questão era: se justamente quando um homem sai
pela manhã uma árvore desaba,
sua presença é benção ou maldição?
Ali estava um homem indo a lugar nenhum, além de dois metros
sob a terra, mas pelo brilho em seus olhos você pensaria
que a maca era uma escada rolante para o sol.
Jimmie fechou os olhos. Nada foi dito.
Ninguém pôde entender por que ele sorria.

Trad.: Nelson Santander

Blessed

As he lay on the gurney waiting
for the chemicals to flood his body
Jimmie Crocket could have been
the man who walks under an overpass
and just as he clears the other side
the overpass collapses and fifty people die.
When they pulled the leather straps tight,
when they inserted the IV’s in his arms
he was so composed, so without rancor
he must have felt himself that blessed.
Unlike so many he hadn’t soiled his pants,
hadn’t called in a huge favor from God,
hadn’t bargained with Satan, hadn’t begged,
hadn’t even physically needed help
when he’d walked to the chamber, entered,
and by himself climbed onto the gurney.
Earlier he’d polished off his final meal,
joked with the guards, and played
Johnny Cash’s biggest hits until dawn.
To our minds, he was like a moth
we’d seen once in the White Mountains,
a dead brown moth laid out like fine
parchment on a white rack of foam going
in circles, spun away at the end of each
rotation by the current, stopped again
and again from being taken by the furious
spillage of water over the boulders’ edge
and into the rapids’ absolute obliteration
of not only its being but its beauty.
Jimmie Crocket could have been that moth,
could have thought, like it he’d be pulled
back from the hard unceasing suck of oblivion,
like it reprieved at the last possible moment.
Moments before he died Jimmie looked
at the tie-down team, at the warden,
the attending physician, the witnesses
fluttering outside the chamber, and
at the preacher as the preacher talked
about the valley of the shadow of death.
The question was, if just as a man walks
out in the morning a tree comes crashing
down, is his attendance a blessing or a curse?
Here was a man going nowhere but six feet
under, but by the look in his eyes you’d think
the gurney was an escalator to the sun.
Jimmie closed his eyes. Nothing was said.
No one could understand why he was smiling.

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