Nossa outra irmã
para Ellen
A coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais nova
não foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,
onde ficou pendurado por um ofegante momento
antes de cair, mas dizer que tínhamos
outra irmã, mais velha, que havia ido embora.
Não consigo lembrar meus motivos: um capricho,
ou seria alguma necessidade minha de brincar com a perda,
de sondar a dor de feridas imaginárias?
Mas aquela primeira frase foi como uma cadeia de DNA
que se replicou em espirais de mentiras
quando minha irmã começou a fazer suas perguntas desesperadas.
Chamei nossa irmã mais velha de Isabel
e dei-lhe olhos cor de avelã e longos cabelos loiros.
Fiz com que fugisse para a Califórnia
onde se drogava e fazia bijuterias hippies.
Antes que eu percebesse, ela já se mudara para Santa Fé
e abrira uma loja. Enviava um cartão-postal
a cada ano, mais ou menos, mas parara de ligar.
Ainda consigo ver minha irmã mais nova me encarando,
os olhos se arregalando de desolação
e depois se enchendo de lágrimas. Ainda me lembro
de como fiquei empolgado e horrorizado
por algo que eu acabara de inventar
ter tanto poder, e ainda posso sentir
o dardo do remorso perfurando meu coração,
enquanto me apressava em dizer-lhe que nada daquilo era verdade.
Mas era tarde demais. Nossa outra irmã
já tinha tomado forma e não podíamos
chamá-la de volta de sua vida distante
nem dizer o quanto sentíamos sua falta.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/07/2020
Our Other Sister
for Ellen
The cruelest thing I did to my younger sister
wasn’t shooting a homemade blowdart into her knee,
where it dangled for a breathless second
before dropping off, but telling her we had
another, older sister who’d gone away.
What my motives were I can’t recall: a whim,
or was it some need of mine to toy with loss,
to probe the ache of imaginary wounds?
But that first sentence was like a strand of DNA
that replicated itself in coiling lies
when my sister began asking her desperate questions.
I called our older sister Isabel
and gave her hazel eyes and long blonde hair.
I had her run away to California
where she took drugs and made hippie jewelry.
Before I knew it, she’d moved to Santa Fe
and opened a shop. She sent a postcard
every year or so, but she’d stopped calling.
I can still see my younger sister staring at me,
her eyes widening with desolation
then filling with tears. I can still remember
how thrilled and horrified I was
that something I’d just made up
had that kind of power, and I can still feel
the blowdart of remorse stabbing me in the heart
as I rushed to tell her none of it was true.
But it was too late. Our other sister
had already taken shape, and we could not
call her back from her life far away
or tell her how badly we missed her.
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