Nelson Santander – Saindo do Armário da Sacristia

Dias atrás, jantávamos, eu e minha esposa, com um casal de amigos. O cardápio, caprichosamente preparado por nosso anfitrião, contou com uma entrada de queijos diversos, patês, pães e pelo menos cinco tipos de azeites especiais. O prato principal foi um risoto diferente de tudo o que eu já havia experimentado antes. Tudo regado a vinho. Muito vinho. Na verdade, encerramos a noite após acabar com três garrafas e meio de uma carta que contava com dois belos chilenos e dois exemplares do melhor vinho brasileiro.
A conversa estava agradável e, em um dado momento, derivou para assuntos envolvendo o sobrenatural. Nosso anfitrião – segundo ele mesmo confessa – morre de medo de fantasmas, espíritos ou qualquer tipo de manifestação do “outro mundo”. Morrer de medo é pouco: ele diz que literalmente se borra todo quando imagina estar diante de uma manifestação sobrenatural – e contou várias histórias supostamente inexplicáveis que teria presenciado. Depois, como era de se esperar, nossos anfitriões quiseram saber minha opinião sobre o assunto. Costumo ser discreto sobre esses temas, para evitar ferir susceptibilidades. Mas o papo camarada e, principalmente, a quantidade de vinho que havia mandado goela abaixo me destravou a língua. Expliquei que não acredito em manifestações sobrenaturais. Naturalmente, o assunto evoluiu para questões religiosas e, mais uma vez, tive que (ou quis) ser sincero quando nossa anfitriã me perguntou:
– Mas e quando a gente morre, o que você acha que acontece?
– Nada. Simplesmente acaba. Temos apenas esta vida. Morreu, acabou.
Meus amigos são teístas: ele, cristão; ela eu ainda não descobri em que acredita, mas parece que em algo ligado ao espiritismo, pois em um dado momento deixou transparecer que acredita na reencarnação. Obviamente eles não se contentaram com a minha resposta e o assunto se estendeu por mais uns 20 ou 30 minutos, envolvendo todos os temas que são abordados quando teístas debatem respeitosamente com céticos (a existência ou não de Deus; a santidade de Cristo; a própria existência histórica de Cristo; se existem almas, espíritos e fantasmas; como as pirâmides foram construídas(!), etc.). Ao final, meu anfitrião, falando entre brincando e sério, me disse algo assim:
– Putz, Nelson. As coisas que você disse deram um tilt aqui na minha cabeça. Acho que nem vou dormir hoje…
Respondi que ele deveria manter a sua crença, se isso o fazia feliz. E a conversa terminou aí.
Não sei se ele realmente conseguiu dormir naquela noite. Espero realmente que sim. Eu ficaria muito consternado em saber que, de alguma maneira, afetei negativamente a vida de alguém apenas por emitir opiniões pessoais sobre temas que tocam tão profundamente as pessoas.
Enfim, é isso: sou um cético em relação a questões sobrenaturais e religiosas. Ou ateu, como queiram. E não é de hoje. Obviamente, como todo brasileiro, fui um cristão (católico) exemplar na infância até a adolescência. Fui batizado, crismado e participei ativamente de uma comunidade de jovens católicos. Tocava violão no coro da Igreja São Benedito, em Avaré. No entanto, à medida que, por curiosidade própria e muita leitura, aprimorava meus conhecimentos sobre ciência, história, literatura, filosofia, etc., “os velhos mitos pretéritos” – como diria Drummond – que eu um dia abraçara foram sendo abandonados, um a um. Primeiramente, as crenças mais frágeis (como aquelas no poder das cartomantes e benzedeiras, em tarô, em sonhos proféticos, na parapsicologia, etc.). Depois, aquelas que diziam mais de perto acerca dos dogmas de minha religião (a existência de Satanás; o nascimento virginal de Jesus; os milagres que ele supostamente realizou; a ressurreição; etc.). Finalmente, lá por volta dos meus 15 ou 16 anos, encarei o mito final: Deus. Não houve uma grande batalha entre a fé e a razão. Nada disso. Quando faceei uma das questões mais fundamentais da humanidade – a existência ou não de um ser todo poderoso que criou todo o universo –, eu já havia chegado a um ponto em que não havia mais como manter a crença na existência de tal divindade.
Abandonei minha fé com o alívio de quem carregou um fardo muito pesado por muito tempo. Sim, alívio. Sim, um fardo. No momento em que concluí que tudo não passava de um grande engodo, me senti livre, solto, em paz. Livre do medo do sobrenatural; livre do medo de nunca saber se seria ou não acolhido em “Sua morada” pelo fato de haver sonegado um wafer da Tostines do meu irmão ou porque havia olhado as pernas de uma colega de escola repleto de pensamentos não muito cristãos; em paz por não precisar mais tentar conciliar o Deus infinitamente bondoso descrito em minha religião com a realidade nua de um mundo cruel que todos os dias se apresentava aos meus sentidos: o mal que não poupava culpados ou inocentes; a total ausência de justiça no mundo; a aleatoriedade com que justos e injustos eram “punidos”; a existência de lugares como Auschwitz ou a persistência da fome na Somália. A questão “como Deus permitia um mundo como esse?” foi definitivamente solucionada para mim quando encarei a verdade da resposta mais simples de todas: não há Deus nenhum.
Não, não houve mágoas na despedida. Minha descrença não nasceu de uma revolta qualquer contra Deus (apesar de todo o espanto que eu experimentava diante das questões acima mencionadas). Ela foi fruto de todo o conhecimento que deliberadamente adquiri somado a uma observação aguda do que acontecia (e acontece) no mundo.
Obviamente, no exato momento em que inúmeros pontos de interrogação foram solucionados, várias outras novas questões surgiram como consequência lógica do fato de não existir um deus sobrepairando o cosmos – e confesso que ainda hoje não tenho a resposta para todas elas. Como surgiu o universo? Qual o sentido da vida? Se não há um Deus vigiando meus passos, se não há um paraíso celeste a ser alcançado se eu só fizer o bem e me arrepender dos pecados, o que me impede de fazer o mal? O que vem depois da morte?
Não sei como surgiu o universo. Ninguém o sabe ainda. Mas a ciência tem avançado bastante sobre o tema e tenho certeza de que logo, logo teremos uma resposta. E mesmo que nunca tenhamos, a colocação de um deus na origem de tudo é tão arbitrária quanto a colocação de qualquer outra coisa no lugar (um buraco negro, por exemplo), sem comprovação fática de tais afirmações.
Qual o sentido da vida? Penso que não há nenhum sentido predeterminado para a existência das pessoas. Cada um de nós deve encontrar o sentido que deve emprestar à sua existência (e, não, isso não é algo fácil de se alcançar) e fazer o melhor que puder com isso.
Por que eu não faço o mal? Pode parecer estranho para algumas pessoas, mas a religião NÃO detém a exclusividade dos padrões morais. Fazer o certo ao invés do errado, o bem ao invés do mal, está muito mais ligado a regras de bom senso que se impõem ao convívio em sociedade do que ao atendimento a certos ditames bíblicos e religiosos. Aliás, quando a religião se arvora em ditar regras morais, o caldo entorna – principalmente quando ela se julga a verdadeira intérprete das vontades de deus aqui na terra. Para ficar apenas em um exemplo, basta analisar como quase todas as religiões tratam os homossexuais. A biologia, a neurociência e a sociedade já avançaram o suficiente para concluir que a homossexualidade é apenas uma expressão da sexualidade humana. Nada além disso. Não é uma doença. E não é um pecado, como quer fazer crer quase que a totalidade de todas as religiões. Mesmo as mais “generosas” delas, como a igreja católica, quando o assunto é homossexualidade costumam manifestar sua contrariedade em frases cheias de condescendência como “ame o pecador, odeie o pecado”. E o fazem com um ar de superioridade moral que faria o Cristo da fábula cristã corar de vergonha…
Sim, as religiões, de uma forma geral, tratam a homossexualidade como um pecado e transformam um grupo enorme de pessoas (segundo estatísticas, cerca de 10% da população mundial) em seres humanos de segunda classe, fadados a sublimar seus desejos ou, se professarem a fé que os condena, a viver com a sensação de estar pecando eternamente, em pensamentos ou atos. Os reflexos nas vidas destas pessoas são incalculáveis para nós, heterossexuais: expulsão ou rejeição da família, virar vítima de preconceito ou de chacota, dificuldade em arranjar emprego e a obrigação de se manter no armário para não chocar familiares e amigos são apenas alguns dos desafios que esses seres humanos têm que enfrentar em seu dia-a-dia apenas pelo fato de sentirem atração por alguém do mesmo sexo.
Então, respondendo à pergunta: eu procuro ter uma vida honesta e digna, e procuro tratar meus semelhantes e dessemelhantes da maneira como gostaria de ser tratado (antes que alguém diga que foi Cristo quem disse isso eu respondo: não, foi Buda, quinhentos anos antes dele) porque isso é a coisa certa a fazer. Porque assim fui educado. E porque, ética e moralmente, essa é a obrigação de todo ser humano. Aliás, existe todo um sistema filosófico, denominado Humanismo Secular, em que se sustenta minha postura. Se alguém tiver curiosidade é só dar uma olhada na Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Humanismo_secular
A essa altura alguém pode estar-se perguntando o porquê de só agora eu ter resolvido “sair do armário” da sacristia. Por que revelar minha descrença?
Eu poderia responder que é porque me cansei de omitir esse aspecto de minha vida, o que sempre me causa a sensação de não estar sendo totalmente sincero com as pessoas – e que talvez até fizesse a diferença para algumas delas. Não sei. Como se sabe, há quem baseie toda sua vida em suas crenças pessoais e a algumas destas pessoas repugna a amizade de um ateu. Sob esse aspecto, sair do armário me ajudaria a filtrar certas amizades: obviamente, eu não quero que gostem de mim por aquilo em que creio ou não creio, mas por quem sou.
Poderia dizer também que abri o jogo porque estou de saco cheio de certas coisas que estão acontecendo no mundo e no Brasil por culpa exclusiva da religião e de seus preceptores. E estou mesmo. Puto. É frustrante, em pleno século XXI, ver um grupo de pessoas que se julgam “fiéis” a um deus vingativo e obtuso, e que, em nome desta crença, praticam as maiores barbaridades e os maiores crimes contra a humanidade de que se tem notícia desde a inquisição católica. O Estado Islâmico é o exemplo mais acabado do nível de maldade e de corrupção humana a que a fé cega pode nos conduzir.
E é triste, frustrante, assistir impotente o avanço das correntes cristãs mais conservadoras na vida dos brasileiros (crentes ou não) e na política nacional. Líderes de diversas denominações neopentecostais – pastores que se tornaram milionários à custa de pessoas absolutamente carentes de tudo e que doam aos seus templos o pouco que têm na esperança de obter uma vida melhor com a ajuda de Deus (que, no caso, ajuda apenas os pastores dessas seitas caça-níquel) – gradativamente ocupam espaços públicos, como redes de televisão, teatros e cinemas falidos e o Congresso Nacional, e os usam para tentar impor a todos – inclusive àqueles que não compartilham de suas crenças – uma moral torta e atrasada, como que querendo levar o Brasil de volta à Idade Média. Pautas progressistas vão sendo gradativamente abandonadas em detrimento da adoção de medidas que parecem saídas de um livro de Nathaniel Hawthorne: redução da maioridade penal; alteração do estatuto do desarmamento; alteração do estatuto da família de modo a impedir o reconhecimento de núcleos familiares que não sejam aqueles constituídos de homem e mulher; a aprovação de um “Estatuto do Nascituro”, que impedirá o aborto até mesmo em caso de estupro; a definição do aborto como crime hediondo (!); criminalização da heterofobia (seja lá o que isso signifique); a instituição do Dia do Orgulho Hétero (!!!); etc. É desolador.
Mas não foi por isso. Ou pelo menos não exclusivamente por isso. Embora minhas preocupações políticas e humanitárias não possam ser descartadas, a questão é mais íntima e pessoal.
Poucas pessoas conhecem minha forma de pensar sobre este tema. Pouquíssimas na verdade. Mas em minha convivência com algumas dessas pessoas ocorreu o que sempre acontece nas interações humanas: meu ponto de vista não só foi muitas vezes aceito como se tornou o fator transformador na maneira com que elas viam o mundo. Como tudo na vida, no entanto, há consequências. O fardo de viver uma vida sabendo que ao morrer tudo estará acabado ou de que não existe uma força superior que irá nos amparar nos momentos de sofrimento e dor não é para qualquer um carregar. Alguns sucumbem e voltam às suas crenças anteriores. Outros não podem se dar a este luxo, pois, como um exército que queima as pontes após atravessá-las, o conhecimento que adquiriram inviabiliza acreditar de novo na existência de uma vida pós-morte ou um paraíso além-túmulo.
E me entristece profundamente saber que alguém a quem eu amo mais do que tudo esteja sofrendo ante a ausência de uma certeza metafísica. E que eu possa ser o causador, ainda que indireto, de tal sofrimento.
Então, esse texto é para você. Para dizer que não, eu não posso lhe devolver o paraíso perdido, pois você nunca o teve. Não tenho como deixá-la confortavelmente aos cuidados de um ente cuja existência é absolutamente indefensável, pois você se sentiria lograda. E não posso prometer que você nunca mais será acometida de certas angústias já que isso, muitas vezes, é a essência da vida de quem teve a coragem de encarar o abismo de frente.
Mas posso, se você me permitir, dar-lhe alguns conselhos.
Primeiro, procure não pensar no assunto. Algumas verdades somente podem ser suportadas com a armadura semi-inviolável que apenas os anos são capazes de nos conceder. Comigo pelo menos foi assim. Dia virá em que você poderá encarar o tema de frente e com desassombro. Por enquanto, apenas viva sua vida da melhor maneira possível, plenamente e sem medo.
Segundo, faça muitos amigos. Aprofunde suas amizades. Curta cada momento com seus companheiros de viagem. A convivência com amigos fiéis é a receita certa para a felicidade e nos ajuda a esquecer a dor da existência.
Terceiro: viaje. O quanto puder. Nem vou perder meu tempo nesse tópico porque você mesma já descobriu o efeito “mágico” que as viagens proporcionam ao nosso bem-estar.
Quarto: aprimore seus conhecimentos. Investigue. Descubra. Não se limite às matérias da faculdade. Seja curiosa: leia romances de boa qualidade, leia filosofia, ciência. Ouça muita música. Assista a bons filmes.
E leia poesia. Muita poesia. Como disse o filósofo norte-americano Richard Rorty, ao descobrir-se portador de um câncer terminal inoperável no pâncreas: “Gostaria que tivesse passado mais tempo da minha vida com versos. Isso não é porque tema ter perdido as verdades que são incapazes de serem a afirmadas em prosa. (…) Ao contrário, é porque teria vivido mais plenamente se tivesse sido capaz de recitar mais velhos poemas – da mesma forma que também teria se tivesse tido mais amigos íntimos. Culturas com vocabulários mais ricos são mais plenamente humanas – mais distantes das bestas – do que as mais pobres; homens e mulheres individuais são mais completamente humanos quando suas memórias estão amplamente estocadas com versos”.
E, principalmente, divirta-se. A vida é curta mesmo. Não vale a pena vive-la se não houver diversão.
E se tudo isso não funcionar, venha pra cá. Não há angústia que não ceda a uma volta de meia hora de carro pela cidade sem destino certo, não é mesmo?

2 comentários em “Nelson Santander – Saindo do Armário da Sacristia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s