Robert Frost – Diretriz

Robert Frost – Diretriz

Recue de tudo isso que agora é demais para nós,
Recue a um tempo simplificado pela perda
Dos detalhes, queimados, dissolvidos e desprendidos,
Como uma escultura de mármore no cemitério, exposta às intempéries,
Há uma casa que não é mais casa
Numa fazenda que não é mais fazenda
E numa cidade que não é mais cidade.
O caminho até lá, se permitir que um guia o conduza,
Um guia cujo único desejo é que você se perca,
Pode parecer que deveria ter sido uma pedreira —
Grandes joelhos monolíticos que a antiga cidade
Há muito desistiu de fingir que mantinha cobertos.
E há uma história num livro sobre isso:
Além da marca das rodas de ferro das carroças,
Os afloramentos exibem linhas traçadas de sudeste a noroeste,
Obra do cinzel de uma enorme geleira
Que firmou os pés contra o Polo Ártico.
Não se incomode com certa frieza vindo dela, que,
Dizem, ainda assombra este lado da Panther Mountain.
Nem precisa se importar com a sucessiva provação
De ser observado por quarenta buracos de porão
Como se por quarenta pares de olhos espreitassem de pequenos barris.
Quanto à agitação da floresta diante de você,
Que manda leves farfalhares às suas folhas,
Debite-a à inexperiência presunçosa.
Onde estavam todas elas há menos de vinte anos?
Elas se orgulham demais de ter privado de luz
Algumas velhas macieiras bicadas por pica-paus.
Invente uma canção alegre sobre como esse caminho
Já foi a volta para casa de alguém depois do trabalho,
Alguém que talvez esteja logo à sua frente, a pé,
Ou numa charrete que range sob uma carga de grãos.
O ápice da aventura é a altura
Da região onde as culturas de duas aldeias se apagaram
Uma na outra. Ambas desapareceram.
E se agora você estiver perdido o bastante para
Se encontrar, recolha atrás de si a estrada-escada
E pregue uma placa FECHADO para todos, menos para mim.
Então, sinta-se em casa. O único campo
Que resta não é maior que uma ferida de arreio.
Primeiro, a casa de faz de conta das crianças,
Louças quebradas sob um pinheiro,
Os brinquedos na casinha das crianças.
Chore pelas pequenas coisas que bastavam para alegrá-las.
Depois, pela casa que não é mais casa,
Mas apenas um buraco de porão rendilhado de lilases,
Agora se fechando lentamente como uma depressão na massa.
Esta não era uma casinha de brinquedo, mas casa de verdade.
Seu ponto de chegada e seu destino são
Um riacho que abastecia a casa,
frio como nascente, ainda tão perto de sua origem,
Elevado e original demais para se enfurecer.
(Conhecemos os riachos do vale que, quando enfurecidos,
Deixam seus farrapos pendurados em farpas e espinhos).
Guardei escondida no arco do pé
De um velho cedro à beira d’água
uma taça partida, como o Graal,
Sob um feitiço para que as pessoas erradas não a encontrem,
Nem possam ser salvas, como São Marcos diz que não devem.
(Roubei a taça da casinha das crianças.)
Eis suas águas e o lugar onde beber.
Beba e volte a ser inteiro, para além da confusão.

Trad.: Nelson Santander

Directive

Back out of all this now too much for us,
Back in a time made simple by the loss
Of detail, burned, dissolved, and broken off
Like graveyard marble sculpture in the weather,
There is a house that is no more a house
Upon a farm that is no more a farm
And in a town that is no more a town.
The road there, if you’ll let a guide direct you
Who only has at heart your getting lost,
May seem as if it should have been a quarry–
Great monolithic knees the former town
Long since gave up pretence of keeping covered.
And there’s a story in a book about it:
Besides the wear of iron wagon wheels
The ledges show lines ruled southeast-northwest,
The chisel work of an enormous Glacier
That braced his feet against the Arctic Pole.
You must not mind a certain coolness from him
Still said to haunt this side of Panther Mountain.
Nor need you mind the serial ordeal
Of being watched from forty cellar holes
As if by eye pairs out of forty firkins.
As for the woods’ excitement over you
That sends light rustle rushes to their leaves,
Charge that to upstart inexperience.
Where were they all not twenty years ago?
They think too much of having shaded out
A few old pecker-fretted apple trees.
Make yourself up a cheering song of how
Someone’s road home from work this once was
Who may be just ahead of you on foot
Or creaking with a buggy load of grain.
The height of the adventure is the height
Of country where two village cultures faded
Into each other. Both of them are lost.
And if you’re lost enough to find yourself
By now, pull in your ladder road behind you
And put a sign up CLOSED to all but me.
Then make yourself at home. The only field
Now left’s no bigger than a harness gall.
First there’s the children’s house of make believe,
Some shattered dishes underneath a pine,
The playthings in the playhouse of the children.
Weep for what little things could make them glad.
Then for the house that is no more a house,
But only a belilaced cellar hole,
Now slowly closing like a dent in dough.
This was no playhouse but a house in earnest.
Your destination and your destiny’s
A brook that was the water of the house,
Cold as a spring as yet so near its source,
Too lofty and original to rage.
(We know the valley streams that when aroused
Will leave their tatters hung on barb and thorn.)
I have kept hidden in the instep arch
Of an old cedar at the waterside
A broken drinking goblet like the Grail
Under a spell so the wrong ones can’t find it,
So can’t get saved, as Saint Mark says they mustn’t.
(I stole the goblet from the children’s playhouse.)
Here are your waters and your watering place.
Drink and be whole again beyond confusion.

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