Seamus Heaney — A Península

Seamus Heaney — A Península

Quando não tiveres mais nada a dizer, somente
Dirige por todo um dia ao redor da península.
O céu tão alto como sobre uma pista de pouso.
Jamais conseguirás chegar à terra sem sinetes,

Mas passarás por ela, sempre margeando a borda.
No entardecer, o horizonte engolfa mar e outeiro,
O campo arado sorve o frontão caiado inteiro
E estás de novo na escuridão. Agora recorda

A orla espelhada e o tronco em chiaroscuro,
Aquela rocha onde as ondas se despedaçavam,
As aves pernaltas apoiadas nas próprias pernas,
Ilhas singrando em direção ao nevoeiro escuro,

E voltas pra casa, ainda sem nada a dizer,
Mas agora verás as paisagens com nitidez
Por meio disso: formas puras em sua nudez,
Água e chão fundidos em sua própria extremidade.

Trad.: Nelson Santander

The Peninsula

When you have nothing more to say, just drive
For a day all round the peninsula.
The sky is tall as over a runway,
The land without marks, so you will not arrive

But pass through, though always skirting landfall.
At dusk, horizons drink down sea and hill,
The ploughed field swallows the whitewashed gable
And you’re in the dark again. Now recall

The glazed foreshore and silhouetted log,
That rock where breakers shredded into rags,
The leggy birds stilted on their own legs,
Islands riding themselves out into the fog,

And drive back home, still with nothing to say
Except that now you will uncode all landscapes
By this: things founded clean on their own shapes,
Water and ground in their extremity.

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