Michelle Hulan – O universo, como em uma última canção para os corações solitários

Michelle Hulan – O universo, como em uma última canção para os corações solitários

Este poema foi inspirado em “People talk and talk more”1, de Eugenio Montale, e no ciclo de vida do nosso Universo. Há uma teoria segundo a qual a fase final do Universo é a denominada Era dos Buracos Negros, na qual esses fenômenos astronômicos avançam lentamente pelo espaço frio até não restar mais nada. Essa imagem me pareceu muito solitária, e fiquei curiosa sobre as dimensões do Universo e sobre como a vida, em toda sua abundância e ubiquidade, ainda está em sua infância. Se reduzíssemos a idade do Universo à duração de uma vida humana, ele teria apenas nanossegundos de idade. Não teria tempo suficiente sequer para abrir os olhos. – Michelle Hulan

Penso que o buraco mais negro é aquele que habitamos
—Eugenio Montale

Imagine um tempo antes da aurora. Quando a luz era apenas fogo se curvando pelo espaço. Imagine quando o Universo se desdobrava como um tecido de seda ao vento, cantando e criando vida como uma criança fazendo fantoches de meias: costurando desajeitadamente o carbono ao oxigênio e o nitrogênio ao hidrogênio, depois enfiando a mão em sua garganta. Nosso universo não é gentil, mas foi cantando que nos trouxe à existência. Até mesmo tudo às vezes deseja outra coisa. Mas hoje em dia, as linhas ao redor de nossos olhos curvam-se como cometas. Nossos corações batem como estrelas moribundas. Como o Universo, estamos destinados ao fim. A nos tornarmos buracos negros perseguindo uns aos outros. Nossos ossos se tornando parentes das doninhas, da hera, da alegria e da ferrugem no mais negro deles. Assombraremos o espaço como a névoa sobre os lagos. Será certamente o mais perto que já estivemos uns dos outros, e estaremos cantando:

Eu me lembro da vida.
Havia tanta coisa. Abracei
tudo. Abracei tudo.

Trad.: Nelson Santander

1. A epígrafe foi extraída de um poema de Eugenio Montale identificado, na tradução inglesa publicada por The Paris Review (n.º 238, inverno de 2021), pelo verso inicial People talk and talk more… («As pessoas falam e falam cada vez mais…»). O poema aborda os buracos negros, imagem retomada por Michelle Hulan.

The Universe, as in One Last Song for the Lonely Hearts

This poem is inspired by both Eugenio Montale’s “People talk and talk more” and the life cycle of our Universe. There is a theory that the final phase of our Universe is the Black Hole Era, where black holes slowly creep across cold space until there’s nothing left. This image struck me as lonely, and I became curious about the scale of the Universe and how life, in its abundance and ubiquity, is still in its infancy. If we were to scale down the age of the Universe into a human lifespan, it would be only nanoseconds old. Not enough time to even open its eyes.

I believe the blackest hole is the one we inhabit
—Eugenio Montale

Imagine a time before morning. When light was just fire bending into space. Imagine when the Universe unfolded like a silk cloth in the wind, singing and building life the way a child makes puppets from socks: clumsily sewing carbon to oxygen and nitrogen to hydrogen then pushing its hand up your throat. Our Universe isn’t gentle, but it sang us into existence. Even everything wants something else sometimes. But these days, the lines around our eyes curve like comets. Our hearts beat like dying stars. Like the Universe, we are destined to end. To become black holes chasing after each other. Our bones making kin with weasels and ivy and mirth and rust in the blackest one. We will haunt space like mist over lakes. It will certainly be the closest we’ve ever been, and we will be singing:

I remember life.
There was so much. I held it
all. I held it all.

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