Tag: Memento Mori
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
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Darcy Ribeiro – A Indesejada

Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na…
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Richard Eberhart – A marmota

Em junho, entre os campos dourados, Avistei uma marmota morta. Morta ela estava; meu juízo se abalou, E a mente projetou a nossa fragilidade nua. Lá embaixo, humilde no vigoroso verão, Sua forma iniciou sua mudança sem sentido, E fez oscilar meus sentidos para o sombrio Vendo a natureza feroz que nela havia. Inspecionando de…
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Merrit Malloy – Epitáfio

Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que…
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Juan Vicente Piqueras – Ristorante dal 1882–

Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis

Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições…
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Rodrigo da Silva – Chegará um dia em que o seu coração parará de bater

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir,…
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Ferreira Gullar – Morrer no Rio de Janeiro

Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da…
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Ferreira Gullar – Reflexão

Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
