Mês: maio 2019
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Adelaide Ivánova – o elefante

quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que…
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Goliarda Sapienza – Sem título

Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se. Consumiu-se o incêndio. Findou-se. Fechou-se o círculo petrificado. Findou-se o tempo. Consumiu-se o delito. Queimou-se a lembrança. Cessou a angústia. Um manto de lava interditou todo crânio toda órbita esvaziada. Toda boca no grito interditou. Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar o silêncio de lava. As formigas rodeiam o fogo gasto…
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Ian Hamilton – Última Valsa

De onde estamos quase que podemos identificar Os rostos destas pessoas que não conhecemos: Um semi-círculo sombreado Ao redor do enorme aparelho de TV doado Que domina nossa ala. A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles Iluminando Amistosos, exaustos sorrisos. E nós, Como se nos importássemos, também sorrimos. Para cada alma perdida, nesta hora tardia Um…
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Jaime Gil de Biedma – Depois da morte de Jaime Gil de Biedma

No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte.…
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Vicente Gaos – Homem Total

Homenagem a Lope de Vega I Olhos verdes de Marta de Nevares Olhos – negros talvez? – de Dorotea. Olhos azuis, límpida luz febea de Camila Lucinda. Que avatares de amor sem contenção! Gozos, pesares, gozos… Isto é amor. Quem não me crê, mire-se no olhar que se pode ver nos olhos de uma mulher.…
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Helena Zelic – Gaveta de Casa

Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância
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Eugénio de Andrade – Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia mas era o mar que estava ali, à porta naqueles olhos.
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Giuseppe Ungaretti – Sentimento do tempo

Sentimento do tempo1931 E à luz mais própria,Deixando apenas uma sombra violácea,Sobre os cimos mais baixos,A distância aberta ao alcance,Cada batida, como usa o coração,Agora escuto,Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábiosTeu último beijo. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo1931 E per la luce giusta,Cadendo solo un ombra violaSopra il…
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Raymond Carver – Fragmento final

E você teve o que queriadesta vida, apesar de tudo?Tive.E o que você queria?Dizer que fui amado, me sentiramado sobre a terra. Trad.: Cide Piquet Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Raymond Carver – Late Fragment And did you get whatyou wanted…
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Joan Margarit – Monumentos

O vazio que sentes, cada vez com mais força,é o dos traidores.Também os monumentos, por dentro, são vazios,com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:escuros e corroídos pela história,é tão sinistro seu interiorcomo arrogante o gesto que no ardesenha a personagem.À medida que os amigos nos traem– e a morte é também uma traição…