quando johanna morreu tinha um ano
e oito meses foi encontrada na piscina
apertava um elefante na mão que sua mãe
até hoje aperta muito embora o alzheimer
lhe impeça de lembrar por que ela a mãe
pulou na piscina ao ver johanna
à deriva no ventinho do norte da renânia
boiando na piscina que o pai de johanna
esqueceu de cobrir enquanto jogava
tênis com outros amigos talvez tão ou mais
ricos do que eles a mãe de johanna que hoje
já não se lembra de muita coisa como falei
por causa do alzheimer lembrou no entanto
de guardar o elefante só esqueceu
de tirar o vestido molhado dizem que passou
dias assim “parecia uma estátua grega” disseram
o que ninguém viu era que apertava também o
elefantinho em 1958 quando eu morri 50 anos
depois tinha vinte e cinco anos e seis meses e apertava
o primeiro verso de um poema de sylvia plath e resistia
bravamente de olhos fechados enquanto caía morto
o mundo inteiro embora soubesse que o resto do
poema é uma declaração de amor completamente idiota
como são todas as declarações de amor heterossexual
e como tantas coisas que plath escreveu recitava
o poema enquanto me afogava me perdoe plath me perdoe
campilho o mundo é um horror o elefante é de pelúcia
e ossinhos não são de mel
são apenas cálcio
nada mais.
Arquivos mensais: maio 2019
Goliarda Sapienza – Sem título
Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.
Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.
Trad.: Valentina Cantori
Goliarda Sapienza
È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.
S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.
Ian Hamilton – Última Valsa
De onde estamos quase que podemos identificar
Os rostos destas pessoas que não conhecemos:
Um semi-círculo sombreado
Ao redor do enorme aparelho de TV doado
Que domina nossa ala.
A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles
Iluminando
Amistosos, exaustos sorrisos. E nós,
Como se nos importássemos, também sorrimos.
Para cada alma perdida, nesta hora tardia
Um sedado espasmo de felicidade.
Trad.: Nelson Santander
Last Waltz
From where we sit, we can just about identify
The faces of these people we don’t know:
A shadowed semi-circle
Ranged around the huge, donated television set
That dominates the ward.
The ‘Last Waltz’ floods over them
Illuminating
Fond, exhausted smiles. And we,
As if we cared, are smiling too.
To each lost soul, at this late hour
A medicated pang of happiness.
Jaime Gil de Biedma – Depois da morte de Jaime Gil de Biedma
No jardim, lendo,
a sombra da casa tolda as páginas
e o frio repentino do final de agosto
faz-me pensar em ti.
O jardim e a casa vizinha
onde piam os pássaros nas trepadeiras,
uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer
e tem-se ainda o livro nas mãos,
eram, lembro-me, teu símbolo da morte.
Oxalá no inferno
de teus últimos dias te desse esta visão
um pouco de doçura, embora não acredite nisso.
Finalmente em paz comigo mesmo,
posso já recordar-te
não nas horas horríveis, mas sim aqui,
no verão do ano passado
quando, de um só golpe,
– tantos meses apagadas –
regressam as imagens felizes
trazidas por tua imagem da morte…
Agosto no jardim, em plena luz do dia.
Taças de vinho branco
deixadas na grama, perto da piscina,
calor sob as árvores. E vozes
que gritam nomes.
Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
– Joaquina dos peitinhos de maçã.
Tu retornavas rindo do telefone
anunciando mais pessoas que viriam:
recordo-te correndo,
a abafada explosão de teu corpo na água.
E as noites também de liberdade completa
na casa espaçosa, inteira para nós
como um convento abandonado,
e a nostalgia de portas secretas,
aquele correr pelos quartos,
olhar nos armários
e divertir-se na alternância
entre estar nu e vestido, tirando o pó
de batinas, botas de cano alto e calções,
arbitrárias cenas,
velhos sonhos eróticos de nossa adolescência,
rapaz solitário.
Lembras-te de Carmina,
da gorda Carmina subindo as escadas
com o rabo para cima
e levando na mão um candelabro?
Foi um verão feliz.
… O último verão
de nossa juventude, disseste a Juan
em Barcelona ao regressar,
nostálgicos,
e tinhas razão. Depois veio o inverno,
o inferno de meses
e meses de agonia
e a última noite de pílulas e álcool
e vômito na alfombra.
Eu me salvei escrevendo
depois da morte de Jaime Gil de Biedma.
Dos dois, eras tu quem melhor escrevia.
Agora sei até que ponto eram teus
o desejo de perfeição e a ironia,
a surdina romântica que palpita em meus poemas
preferidos, por exemplo, em Pandêmia… *
Às vezes me pergunto
como minha poesia ficará sem ti?
Embora talvez tenha sido eu quem te ensinou.
Quem te ensinou a vingar-te de meus sonhos,
por covardia, corrompendo-os.
Trad.: Nelson Santander
* O poeta se refere ao poema “Pandêmia e Celeste”, também traduzido por mim e que pode ser lido aqui:
https://wordpress.com/post/nsantand.wordpress.com/6119
Después de la muerte de Jaime Gil de Biedma
En el jardín, leyendo,
la sombra de la casa me oscurece las páginas
y el frío repentino de final de agosto
hace que piense en ti.
El jardín y la casa cercana
donde pían los pájaros en las enredaderas,
una tarde de agosto, cuando va a oscurecer
y se tiene aún el libro en la mano,
eran, me acuerdo, símbolo tuyo de la muerte.
Ojalá en el infierno
de tus últimos días te diera esta visión
un poco de dulzura, aunque no lo creo.
En paz al fin conmigo,
puedo ya recordarte
no en las horas horribles, sino aquí
en el verano del año pasado,
cuando agolpadamente
-tantos meses borradas-
regresan las imágenes felices
traídas por tu imagen de la muerte…
Agosto en el jardín, a pleno día.
Vasos de vino blanco
dejados en la hierba, cerca de la piscina,
calor bajo los árboles. Y voces
que gritan nombres.
Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
-Joaquina de pechitos de manzana.
Tú volvías riendo del teléfono
anunciando más gente que venía:
te recuerdo correr,
la apagada explosión de tu cuerpo en el agua.
Y las noches también de libertad completa
en la casa espaciosa, toda para nosotros
lo mismo que un convento abandonado,
y la nostalgia de puertas secretas,
aquel correr por las habitaciones,
buscar en los armarios
y divertirse en la alternancia
de desnudo y disfraz, desempolvando
batines, botas altas y calzones,
arbitrarias escenas,
viejos sueños eróticos de nuestra adolescencia,
muchacho solitario.
Te acuerdas de Carmina,
de la gorda Carmina subiendo la escalera
con el culo en pompa
y llevando en la mano un candelabro?
Fue un verano feliz.
…El último verano
de nuestra juventud, dijiste a Juan
en Barcelona al regresar
nostálgicos,
y tenías razón. Luego vino el invierno,
el infierno de meses
y meses de agonía
y la noche final de pastillas y alcohol
y vómito en la alfombra.
Yo me salvé escribiendo
después de la muerte de Jaime Gil de Biedma.
De los dos, eras tú quien mejor escribía.
Ahora sé hasta qué punto tuyos eran
el deseo de ensueño y la ironía,
la sordina romántica que late en los poemas
míos que yo prefiero, por ejemplo en Pandémica…
A veces me pregunto
cómo será sin ti mi poesía.
Aunque acaso fui yo quien te enseñó.
Quien te enseñó a vengarte de mis sueños,
por cobardía, corrompiéndolos.
Vicente Gaos – Homem Total
Homenagem a Lope de Vega
I
Olhos verdes de Marta de Nevares
Olhos – negros talvez? – de Dorotea.
Olhos azuis, límpida luz febea
de Camila Lucinda. Que avatares
de amor sem contenção! Gozos, pesares,
gozos… Isto é amor. Quem não me crê,
mire-se no olhar que se pode ver
nos olhos de uma mulher. (Cantares:
Estes olhos que vemos não são olhos
porque também os vemos, eles são
olhos porque nos vêem.) Mas a cegueira
de Marta, e o esquecimento, os restolhos
de tanto fogo extinto… Tua canção
se eleva enfim até a luz primeira.
II
Não sabe o que é o amor quem não te ama.
Não sabe o que é o amor quem não te espia.
Arrancaste à tu’alma e poesia
O som mais doce, a mais ferina chama.
O que restou do amor por tanta dama?
Apenas cinzas da imensa pira.
Anuvia-se o olhar, o corpo expira,
e a alma quer se unir à alta rama
de Deus, que com seus silvos amorosos
te encanta na aguda paz do verão.
Madrid, mil, seiscentos e trinta e cinco.
Já se foram os anos venturosos
e os amargos. Tudo passou em vão.
E a Deus te entregas com mortal afinco.
Trad.: Nelson Santander
Hombre total
Homenaje a Lope de Vega
I
Ojos verdes de Marta de Nevares.
Ojos -¿negros tal vez?- de Dorotea.
Ojos azules, clara luz febea
de Camila Lucinda. ¡Qué avatares
de amor sin contención! Gozos, pesares,
gozos… Esto es amor. Quien no lo crea,
mírese en unos ojos, que se vea
en unos ojos de mujer. (Cantares:
Esos ojos que vemos no son ojos
porque nosotros los veamos, son
ojos porque nos ven.) Mas la ceguera
de Marta, y el olvido, los despojos
de tanta lumbre extinta… Tu canción
se eleva al fin hacia la luz primera.
II
No sabe qué es amor quien no te ama.
No sabe qué es amor quien no te mira.
Tú arrancaste a su alma y a su lira
el son más dulce, la más fiera llama.
¿Qué fue de tanto amor por tanta dama?
Sólo cenizas de la inmensa pira.
Se nubla la mirada, el cuerpo expira,
y el alma quiere asirse a la alta rama
de Dios, que con sus silbos amorosos
te hechiza en la honda calma del verano.
Madrid, a mil seiscientos treinta y cinco.
Pasaron ya los años venturosos
y los amargos. Todo pasó en vano.
Y a Dios te entregas con mortal ahínco.
Helena Zelic – Gaveta de Casa
Nossas fotos de infância
boletins de nota azul
três diários à chave
hoje abertos
duzentos milhões de pequenos
museus da desimportância
Eugénio de Andrade – Ao fim da tarde
Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali, à porta naqueles olhos.
Giuseppe Ungaretti – Sentimento do tempo
Sentimento do tempo
1931
E à luz mais própria,
Deixando apenas uma sombra violácea,
Sobre os cimos mais baixos,
A distância aberta ao alcance,
Cada batida, como usa o coração,
Agora escuto,
Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábios
Teu último beijo.
Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo
1931
E per la luce giusta,
Cadendo solo un ombra viola
Sopra il giogo meno alto,
La lontananza aperta alla misura,
Ogni mio palpito, come usa il cuore,
Ma ora l’ascolto,
T’affretta, tempo, a pormi sulle labbra
Le tue labbra ultime.
Raymond Carver – Fragmento final
E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado, me sentir
amado sobre a terra.
Trad.: Cide Piquet
Raymond Carver – Late Fragment
And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.
Joan Margarit – Monumentos
O vazio que sentes, cada vez com mais força,
é o dos traidores.
Também os monumentos, por dentro, são vazios,
com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:
escuros e corroídos pela história,
é tão sinistro seu interior
como arrogante o gesto que no ar
desenha a personagem.
À medida que os amigos nos traem
– e a morte é também uma traição –
nos vamos convertendo em monumentos.
Por fora, ainda resta um resquício de eloquência,
sobretudo ao falar com alguém jovem,
mas a voz ressoa no vazio,
perdida entre os vergalhões de uma oculta estrutura
que se desgasta em finas camadas de ferrugem.
Trad.: Nelson Santander
Joan Margarit – Monumentos
El vacío que sientes cada vez con más fuerza
es el de los traidores.
También los monumentos, por dentro, están vacíos,
con las entrañas llenas de óxido y de muerte:
oscuros y podridos por la historia,
es tan siniestro su interior
como arrogante el gesto que en el aire
dibuja el personaje.
Según van traicionando los amigos
—y la muerte es también una traición—
nos vamos convirtiendo en monumentos.
Por fuera queda un resto de elocuencia,
sobre todo al hablar con alguien joven,
pero la voz resuena en el vacío,
perdida entre los hierros de un oculto entramado
que se deshoja en leves capas de óxido.