Rosanna Warren – Lago

Você estava com água até as coxas e a luz verde refletia
nas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama piloto
ardia nas antigas estátuas de Dionísio,
e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia que
aquela água poderia lavar o peso
de suas próprias estações e de doenças que não eram as suas: era uma carícia
fria e infiel, que envolvia sua cintura,
que a tomava em seus braços e você a ela se entregava, um pouco,
só um pouco, sabendo com que rapidez e leveza aquele toque seria retirado,
e quão rapidamente você estaria de pé novamente sobre a teia de raízes da margem, secando, restaurada
aos pesos e medidas, pulsos, dores e cicatrizes que você conhece bem,
ombro debilitado, câimbras nos tendões do tornozelo, joelhos ruins, sonhos ruins
que você reconheceria no escuro, em qualquer lugar, como seus;
e você também sabia que aqueles que você não podia curar permaneceriam sem cura
embora você os alcançasse, os beijasse na testa, e eles olhassem de volta para fora da deriva;
e sabia que as montanhas continuariam seu lento e degradante deslocamento para o mar
até que as placas continentais se movimentassem em seu sono, e todo este lago fosse engolido
pelos estertores da terra, pelo bocejo do oceano.

Trad.: Nelson Santander

Lake

You stood thigh-deep in water and green light glanced
off your hip hollows and stomach which is where the pilot light
flickers in ancient statues of Dionysus,
and for a moment as you strode deeper it seemed as if
this water might rinse away the heaviness
of your own seasons and of illnesses not your own: it was a caress
cool and faithless, it lapped against your waist,
it took you in its arms and you gave yourself, a little,
only a little, knowing how soon and how lightly that touch would be withdrawn,
how soon you would be standing again on the rootwebbed shore, drying, restored
to the weights and measures, pulses, aches and scars you know by heart,
the cranky shoulder, cramping heel tendons, bad knees, bad dreams
you would recognize in the dark, anywhere, as your own;
and you knew, too, how those you cannot heal would remain unhealed
though you reach for them, kiss them on the forehead, and they stare back out of the drift;
and you knew the mountains would continue their slow, degrading shuffle to the sea
until continental plates shifted in their sleep, and this whole lake was swallowed
in earth’s gasp, ocean’s yawn.

Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/05/2018

Abdellatif Laâbi – Duas horas em um trem

Em uma viagem de trem de duas horas
Eu revejo o filme da minha vida
Cerca de dois minutos por ano
Meia hora para a minha infância
outra para o meu tempo na prisão
Enquanto o amor, livros e viagens
compartilham o resto
A mão de minha parceira gradualmente
se funde à minha e sua cabeça,
que repousa em meu ombro,
parece leve como uma pomba
Quando chegarmos
estarei com cinquenta e poucos anos
e terei pouco mais de uma hora
de vida

Trad.: Nelson Santander

Two Hours on a Train

On a two-hour train ride
I replay the film of my life
Roughly two minutes per year
A half hour for my childhood
another for my time in prison
While love, books and travels
share the rest
My partner’s hand gradually
fuses into my own and her head,
which rests on my shoulder
feels as light as a dove
By the time we’ll arrive
I’ll have reached my fifties
and I’ll have little over an hour
left to live

Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Alex Dimitrov – Os anos

Todas as festas que você frequentou
observando o salão
de uma sacada
onde alguém se juntou a você
para fumar e depois voltou.
E acontece que ninguém
teve a infância que desejou,
e eles lhe diziam isso
um pouco bêbados, ligeiramente inclinados,
em menos tempo que leva
para fumar um cigarro,
porque coisas tristes
não podem ser explicadas.
Atrás da vidraça e lá dentro
todos os seus amigos conversavam.
Você podia sentir o timbre
das vozes deles. Você poderia
dizer pelos olhos deles que todos estavam
em algum outro lugar. 1999
ou 2008 ou em junho passado.
Claro, é importante
ir a festas. Fazer da
vida um vestido ou uma bebida
ou sapatos de camurça usados na chuva
por alguém. A caminho de casa,
no carro de volta, o céu noturno
executava seus velhos truques. As estrelas
se organizavam silenciosamente.
A pessoa em quem você pensou dirigia
sob elas. Longe da festa
(assim como você), rumo aos anos.

Trad.: Nelson Santander

The Years

All the parties you spent
watching the room
from a balcony
where someone joined you
to smoke then returned.
And how it turns out no one
had the childhood they wanted,
and how they’d tell you this
a little drunk, a little slant
in less time than it took
to finish a cigarette
because sad things
can’t be explained.
Behind the glass and inside,
all your friends buzzed.
You could feel the shape
of their voices. You could
tell from their eyes they were
in some other place. 1999
or 2008 or last June.
Of course, it’s important
to go to parties. To make
life a dress or a drink
or suede shoes someone wears
in the rain. On the way home,
in the car back, the night sky
played its old tricks. The stars
arranged themselves quietly.
The person you thought of drove
under them. Away from the party,
(just like you) into the years.

Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio

Há um livro chamado
“Um Dicionário dos Anjos”.
Ninguém o abre há cinquenta anos,
Eu sei, porque quando o fiz
As capas rangeram, as páginas
desmancham-se. Nele descobri
Que os anjos eram tão abundantes
Quanto moscas. Ao entardecer, o céu
Costumava ficar repleto deles.
Você precisava agitar os dois braços
Apenas para mante-los à distância.
Agora o sol brilha
Através de altas janelas.
A biblioteca é um lugar tranquilo.
Anjos e deuses amontoados
em sombrios tomos fechados.
O grande segredo está
Em alguma estante pela qual
Miss Jones passa em sua ronda diária.
Ela é muito alta, então mantém
A cabeça inclinada como se estivesse escutando.
Os livros estão sussurrando.
Eu não ouço nada, mas ela sim.

Trad.: Nelson Santander

Republicação com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 14/05/2018

Charles Simic – In Library

There’s a book called
“A Dictionary of Angels.”
No one has opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies. The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.
Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She’s very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.

Eugenio Montale – O lago de Annecy

Não sei por que minhas memórias te relacionam
ao lago de Annecy
que visitei alguns anos antes de tua morte.
Mas na época eu não pensava em ti, era jovem
e julgava ser o senhor do meu destino.
Por que uma memória tão enterrada é capaz de
aflorar eu não sei; tu mesma
certamente me enterraste e nem percebeste.
Agora ressurges viva, embora já não estejas. Eu poderia
ter perguntado então sobre teu pensionato,
ter assistido as meninas saindo em fila,
ter encontrado um pensamento teu de quando ainda estavas
viva. Mas não pensei em nada disso. Agora que é inútil,
a fotografia do lago me é suficiente.

6 de junho de 1971

Trad.: Nelson Santander

Il Lago di Annecy

Non so perché il mio ricordo ti lega
al lago di Annecy
che visitai qualche anno prima della tua morte.
Ma allora non ti ricordai, ero giovane
e mi credevo padrone della mia sorte.
Perché può scattar fuori una memoria
così insabbiata non lo so; tu stessa
m’hai certo seppellito e non l’hai saputo.
Ora risorgi viva e non ci sei. Potevo
chiedere allora del tuo pensionato,
vedere uscirne le fanciulle in fila,
trovare un tuo pensiero di quando eri
viva e non l’ho pensato. Ora ch’è inutile
mi basta la fotografia del lago.

6 giugno 1971

Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.

Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.

Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.

Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 13/05/2018

José Infante – [A morte é definitivamente o fim]

A morte é definitivamente o fim, por mais
que nos tentem enganar com cânticos,
com hinos, com orações e salmos.
A morte é o fim e é justo
que seja assim. Que não haja
recompensas nem punições. Somente
que nos deixem perdermo-nos no nada,
de onde viemos sem ter sido
previamente convidados.

Trad.: Nelson Santander

[La muerte sí es el final]

La muerte sí es el final por mucho
que intenten engañarnos con canciones,
con himnos, con plegarias y salmos.
Es la muerte el final y es justo
que así sea. Que no existan
ni premios ni castigos. Solamente
que nos dejen perdernos en la nada,
desde donde vinimos sin haber sido
previamente invitados.

Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
– a dúvida, a possibilidade da morte –
e iluminado pela luz hesitante de

pequenos astros – o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato brincando na sala
com o último raio de sol da tarde.

Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra “casa”; não fulge.

Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.

Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 09/05/2018