Mês: abril 2023
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Rosanna Warren – Lago

Você estava com água até as coxas e a luz verde refletianas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama pilotoardia nas antigas estátuas de Dionísio,e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia queaquela água poderia lavar o pesode suas próprias estações e de doenças que…
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Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta peleque cobre a minha mãocomo uma luva?Que vento é esteque sopra sem soprarencrespando a sensível superfície?Por fora a alheia cascadentro a polpae a distância entre as duasque me atropela.Pensei entrar na velhicepor inteirocomo um barcoou um cavalo.Mas me surpreendojovem velha e maduraao mesmo tempo.E ainda aprendo a viverenquanto avançona rota em…
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Abdellatif Laâbi – Duas horas em um trem

Em uma viagem de trem de duas horasEu revejo o filme da minha vidaCerca de dois minutos por anoMeia hora para a minha infânciaoutra para o meu tempo na prisãoEnquanto o amor, livros e viagenscompartilham o restoA mão de minha parceira gradualmentese funde à minha e sua cabeça,que repousa em meu ombro,parece leve como uma…
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Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem…
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Alex Dimitrov – Os anos

Todas as festas que você frequentouobservando o salãode uma sacadaonde alguém se juntou a vocêpara fumar e depois voltou.E acontece que ninguémteve a infância que desejou,e eles lhe diziam issoum pouco bêbados, ligeiramente inclinados,em menos tempo que levapara fumar um cigarro,porque coisas tristesnão podem ser explicadas.Atrás da vidraça e lá dentrotodos os seus amigos conversavam.Você…
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Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio Há um livro chamado“Um Dicionário dos Anjos”.Ninguém o abre há cinquenta anos,Eu sei, porque quando o fizAs capas rangeram, as páginasdesmancham-se. Nele descobriQue os anjos eram tão abundantesQuanto moscas. Ao entardecer, o céuCostumava ficar repleto deles.Você precisava agitar os dois braçosApenas para mante-los à distância.Agora o sol brilhaAtravés de altas janelas.A biblioteca é…
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Eugenio Montale – O lago de Annecy

Não sei por que minhas memórias te relacionamao lago de Annecyque visitei alguns anos antes de tua morte.Mas na época eu não pensava em ti, era joveme julgava ser o senhor do meu destino.Por que uma memória tão enterrada é capaz deaflorar eu não sei; tu mesmacertamente me enterraste e nem percebeste.Agora ressurges viva, embora…
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Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempretiveram um jeito quase póstumode existir: guardar o lumeem silêncio, comer depois deservir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destinopara lerem os caminhos perdidose coleccionavam a abdicaçãoem caixinhas de folha, entre bilhetescaducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a vida toda por uma vidapróxima, de alma presa…
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José Infante – [A morte é definitivamente o fim]
![José Infante – [A morte é definitivamente o fim]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2022/09/caronte.jpg)
A morte é definitivamente o fim, por maisque nos tentem enganar com cânticos,com hinos, com orações e salmos.A morte é o fim e é justoque seja assim. Que não hajarecompensas nem punições. Somenteque nos deixem perdermo-nos no nada,de onde viemos sem ter sidopreviamente convidados. Trad.: Nelson Santander [La muerte sí es el final] La muerte…
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Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos– a dúvida, a possibilidade da morte –e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato brincando na salacom o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais…