Tag: Memento Mori
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Manuel António Pina – Corpo Presente

Toda a casa suspenderaa respiraçãoincapaz de contertamanha desproporção, e eu próprio desapareceraalgures na sala, entre a tua vida e a tua morte.Atenderam o telefonefalando baixo, temendo que regressassecada coisa do teu lugarsem estar prontos aindapara a tua solidão. Faltava muitopara podermos perceber,muitos passos para chegarmosaonde sempre estivéramos: mais perto do tédio do que da esperança,da…
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Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave

para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter…
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Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céusnem elevam-se abstratostornam-se apenas retratoslado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvelaustero e silenciosodo tio tuberculosoque esquivo me espia. A avó já está friamas me olha com ternuratece uma colcha escurapara as bodas da família, Mortos não sobem trilhasde inconsistentes arranjosnão viram anjos nem brisasnem cristos nem assombrados. Sequer…
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Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data,que é única, ôntica, enfática.Nunca depende de quem vainem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba,e, se dele a alma se aparta,não cabe a ninguém afirmá-lo,nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas se apagame trocam-se então os cenários,as…
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José Mateos – In Memoriam

Para Pedro Sevilla Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,não se deseja viver, e tu sabes disso.Há um instante, na penumbra de um quarto de hospital, viste a mão hirta,seu rosto afundado que o lençol ocultou.E foi como olhar-se num espelhoe perceber que somos menos que essa ausência,menos que a névoa que o ar dissipa. Eu…
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Juan Luis Panero – Epitáfio diante de um Espelho

Dura há de ser a vida para ti,que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,para ti, cuja única certeza é tua memóriae, portanto, teu sepulcro mais infausto.Dura há de ser a vida, quando os anos passareme por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,quando vires, como hoje, este fantasmaque tempos atrás te consolou com…
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Ivan Junqueira – No Leito Fundo

No leito fundo em que descansas,em meio às larvas e aos livores,longe do mundo e dos terroresque te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhoresque te esqueceram nas andanças,longe das taças e das danças,e dos feéricos rumores; longe das cálidas criançasque ateavam fogo aos corredorese se expandiam, quais vapores,entre as alfaias…
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Ivan Junqueira – Antes que o Sol se Ponha

Antes que o sol se ponha e seja tarde,e o azul crepuscular me deite a garra,e eu, nu, retorne à terra sem fanfarraou mortalha que o corpo me resguarde;antes que murche a pétala na jarra,e eu cale, para sempre, sem alarde,e tudo o que me coube, por covarde,não mais recorde a relva que se agarraàs…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…