Amor: 11 poemas sobre corpo, perda e permanência

Resumo: Esta coletânea reúne 11 poemas de amor de grandes poetas contemporâneos, apresentados em traduções autorais e acompanhados de breves leituras críticas. Longe do amor idealizado, os textos exploram o amor como experiência existencial: corpo e doença, desejo e assimetria, permanência e perda, cuidado e ruptura. Um percurso poético que atravessa o arrebatamento, a memória, a lucidez e o risco para leitores que buscam poemas de amor profundos, intensos e comentados.

Introdução

Há temas que a poesia não esgota porque não se deixam esgotar. O amor é um deles — talvez o principal. Mas não porque seja inesgotável por excesso de beleza ou promessa; antes porque é uma experiência que resiste à definição. A poesia retorna ao amor não para explicá-lo, mas para testar seus limites: o que ele aguenta, o que ele exige, o que ele deixa quando passa, e o que permanece quando tudo parece ter ido.

Nesta coletânea, o amor não aparece como virtude decorativa, nem como ideal romântico estabilizado. Ele surge como força material: algo que pesa, fere, sustenta, desestabiliza, cura e compromete. Amor aqui é tempo vivido, corpo exposto, linguagem insuficiente. É o que nos atravessa quando o entusiasmo já não basta e a permanência cobra seu preço.

Desde cedo, a poesia aprendeu a desconfiar do amor enquanto promessa. As grandes tradições líricas — do canto erótico antigo à modernidade — sempre souberam que amar é também arriscar o mundo. O que muda ao longo do tempo não é essa intuição, mas o foco: se antes a ênfase recaía sobre a exaltação, a poesia contemporânea insiste na consequência. Amar, hoje, é perguntar: o que fica depois do arrebatamento? O que fazemos com a perda anunciada? Como o corpo sustenta o que a linguagem celebra?

Os poemas aqui reunidos conversam justamente nesse ponto de fricção. Alguns começam no impulso — a correnteza que nos arrasta e nos obriga a nos segurar um ao outro para não cair. Outros já partem do reconhecimento de que a duração não mede a intensidade; que poucas noites podem equivaler a uma vida inteira. Em certos momentos, o amor aparece como depósito geológico, veios subterrâneos que aguardam a luz. Em outros, como assimetria: dar demais, querer demais, ferir ou ser ferido.

Há poemas em que o amor se ausenta e, ainda assim, organiza tudo. A casa, o corpo, a escrita — tudo gira em torno do que falta. Amar, então, é aprender a habitar o vazio sem torná-lo decorativo. É aceitar que a memória não consola: insiste. Outros poemas avançam um passo além e escolhem amar com lucidez, sabendo que a perda virá, que a indiferença é uma possibilidade tão concreta quanto a morte, e que mesmo assim vale a pena permanecer.

O corpo atravessa toda a coletânea. Corpo doente, corpo marcado, corpo que cuida, corpo que deseja, corpo que se funde até doer. O amor não aparece como abstração: é carne, cicatriz, peso. Às vezes, união; às vezes, lacre. O que se chama “matrimônio”, aqui, não é símbolo social, mas experiência visceral, uma proximidade que sustenta e aprisiona, cura e sangra.

E há, por fim, o amor levado ao absoluto: não o amor seguro, edificante, moralmente aceitável, mas aquele que exige tudo, que ameaça a identidade, que pede perdão antes mesmo de chegar. Um amor que não promete salvação, apenas intensidade e que, por isso mesmo, permanece como pergunta final.

Lidos em conjunto, esses poemas compõem um percurso: do impulso à memória, da fusão à emancipação, da esperança à consciência trágica. Não se trata de um manual do sentir, mas de uma espécie de mapa instável, desses que não indicam o caminho, apenas o terreno. Amor, aqui, é menos um destino do que um modo de atravessar o mundo sabendo que algo sempre ficará pelo caminho.

1. Poema de Amor, de Linda Pastan1

Quero escrever para ti
um poema de amor tão impetuoso
quanto o nosso riacho
após o degelo
quando ficamos
em suas margens
perigosas e o vemos arrastar
consigo cada graveto
cada folha seca e cada galho
em seu caminho
cada escrúpulo
quando o vemos
tão inchado
pela enxurrada
que mesmo enquanto observamos
precisamos nos agarrar
um ao outro
e recuar
precisamos nos agarrar um
ao outro ou
encharcar nossos
sapatos precisamos nos
agarrar um ao outro

https://singularidadepoetica.art/2024/12/16/linda-pastan-poema-de-amor/

2. Ou quem sabe nove, de Idea Vilariño2

Talvez tenhamos tido só sete noites
não sei
não as contei
como poderia.
Talvez não mais que seis
ou quem sabe nove.
Não sei
mas valeram
como o amor mais duradouro.
Talvez
com quatro ou cinco noites como essas
mas precisamente como essas
talvez
se possa viver
como de um longo amor
uma vida inteira.

https://singularidadepoetica.art/2023/05/18/idea-vilarino-ou-quem-sabe-nove/

3. Ainda assim, de Alice Walker3

O amor, se é amor, nunca se vai.
Ele fica incrustado em nós,
como veios de ouro na Terra,
esperando a luz ,
esperando ser atingido.

https://singularidadepoetica.art/2022/10/25/alice-walker-ainda-assim/

4. Estive pensando de novo no amor, de Vievee Francis4

Há os que vivem para recebê-lo
e os que vivem para dá-lo.

Claro que existem aqueles para quem ambas as coisas são verdade,
mas nunca na mesma medida.

Aqueles que o têm para dar são
como cardeais na neve. Tão fáceis
e lindamente iluminados. Alguns
são como coelhos. Difíceis de ver
exceto para aqueles que deles fariam presa:
toda aquela suavidade e tremor e sangue.

Aqueles que o querem
não podem ser saciados. Com olhos de águia e tais garras,
qualquer criatura peluda serve. É tão fácil
arrancar um coração quando ele pulsa tão forte.

Eu vagueio pelo inverno.
Eu sei o que sou.

https://singularidadepoetica.art/2023/02/28/vievee-francis-estive-pensando-novamente-no-amor/

poemas-de-amor-forca-e-risco

5. Uma carta ao amor, de Caitlyn Siehl5

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
estava todo em maiúsculas
como se estivesse tentando compensar
a sua ausência.

Era sobre um mundo distante deste
onde todas as plantas eram aterrorizantes,
mas tinham poderes de cura se tivéssemos a coragem
de tocá-las.

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
inflou a garganta como um sapo-boi
e implorou para ser beijado.

É o meu poema favorito porque o odeio demais.

Leio-o pelo menos uma vez por dia e penso:
“Então é disso que sou capaz sem você. Vai entender.”

Há um buraco em tudo
e lá te encontro, sorrindo,
como se você não tivesse outro lugar para estar.

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
talvez um dia seja considerado uma obra-prima.
Pessoas virão de todo o mundo
para passar os dedos pelo texto impresso
e maravilhar-se com o quão vazio ele está de você.

Não reconhecerão o seu cheiro,
preso silenciosamente às mãos.
Porque se entramos numa sala
e notamos o que está faltando,
isso ainda está lá, não está?

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
ainda era sobre você.
Droga.
Sempre.

https://singularidadepoetica.art/2024/03/03/caitlyn-siehl-uma-carta-ao-amor/

6. O adeus de Dido, de Linda Pastan

Crônica é a chuva
em minhas vidraças, e as velas se afogam
em sua própria cera.
Abandonados pela luz,
até os filamentos das estrelas
escurecem. Esta tarde
escorei com estacas
suas rosas encharcadas,
elas agora lembram jovens meninas
apoiadas em muletas.

Você deixou
um mapa parcial
de sua mão direita
em cada maçaneta,
e eu sigo de sala
em sala, nômade
em minha própria casa,
o coração batendo
no peito, exigindo
ser solto.

https://singularidadepoetica.art/2025/03/15/linda-pastan-o-adeus-de-dido-2/

7. Poema de amor, de Tishani Doshi6

No fim, perderemos um ao outro
para alguma coisa. Eu até preferiria algo
grandioso — morte ou desastre.
Mas pode não ser assim.
Pode ser que você saia
certa manhã para comprar cigarros,
depois de fazermos amor,
e nunca mais volte,
ou que eu me apaixone por outro homem.
Pode ser um lento deslizamento para a indiferença.
Seja como for, teremos de aprender
a suportar o peso da eventualidade
de que perderemos um ao outro para alguma coisa.
Então por que não começar agora, enquanto sua cabeça
repousa como uma lua perfeita em meu colo,
e os cães na praia estão uivando lá fora?
Por que não alcançar a costura desta
noite no sul da índia e rasgá-la, só um pouco, para que a queda
possa começar? Porque mais tarde, quando cruzarmos
um com o outro nas ruas e formos obrigados a desviar os olhos,
quando tivermos lançado
os pedaços descartados do que fomos nós
nas gavetas do quarto e o cheiro
de nossos corpos estiver desaparecendo como a doce
decomposição dos lírios – do que chamaremos isso,
quando não for mais amor?

https://singularidadepoetica.art/2023/06/12/tishani-doshi-poema-de-amor-2/

poemas-de-amor-ausencia-e-perda

8. A mudança, de Laura Foley7

Voltamos ao supermercado
onde um dia nos imaginamos
fazendo amor pelos corredores
entre mangas, kiwis
e abacaxis,
mas mal ousamos sorrir,
embora eu a sustente com o olhar,
enquanto colocamos no carrinho uma caixa
de famotidina, frascos
de álcool em gel
e água esterilizada,
nossos beijos contidos
como brotos verdes
ou promessas por vir —
ela não quer me passar
as drogas da químio,
e eu não quero lhe dar
um resfriado,
e assim seguimos, transformadas
de recém-casadas risonhas
em esposas amadurecidas
que se apoiam uma na outra,
percorrendo os corredores,
escolhendo kiwis doces e maduros,
e queijo da Espanha, como um agrado,
empurrando um carrinho pesado —
depois de limpar
cuidadosamente sua alça.

https://singularidadepoetica.art/2025/02/15/laura-foley-a-transformacao/

9. Matrimônio, por Ellen Bass8

Quando, depois de uma grave enfermidade, você
finalmente estende todo o comprimento do seu corpo sobre o meu,
não é como as camadas da terra, a pressão
do tempo sobre a areia, a lama, fragmentos de conchas, todos
esses anos, incontáveis despertares e adormeceres,
noites em claro, brigas, manhãs banais
falando de nada, e os breves
mergulhos incendiários, e o silêncio
sem autoconsciência dos animais pastando, a água
em movimento, o vento, o gelo que carrega os minutos e deixa
para trás minérios que consolidam o sedimento em rocha?
Como suportar o peso, com cada
lasca de osso comprimido? E depois, como suportar quando
o peso se vai, como uma mulher
cujo pescoço foi enfeitado com argolas, e já não pode
mais sustentá-lo sozinha? Oh o amor,
é um bálsamo mas também um lacre. Ele nos ata
como o pelo de um coelho ao coelho.
Quando você o arranca, agarrando pela borda
da pele cortada, separando as membranas
lustrosas, o corpo fica morno e flácido. Se pudesse,
você penetraria naquela pela úmida e escorregadia
e a levaria nas costas. Isso não é puro,
branco e rendado como um casamento,
não é a efervescência brilhante do champanhe
escorrendo pelo gargalo da garrafa. Esta é a união
visceral e sangrenta que é amor, mas
além do amor. Além do encanto e do deleite,
assim como você, para si mesma, está além do encanto e do deleite.
Esta é a esfolada carne do amor, os becos e os vidros
estilhaçados do amor, as pétalas arrancadas dos ramos do amor,
o grito rouco e vertiginoso, a fome obstinada.

In https://singularidadepoetica.art/2022/12/04/ellen-bass-matrimonio/

10. Por que deixei o jardim, de Ama Codjoe9

Depois que perdi meu seio, tornei-me uma mulher
suturada por um certo saber.

Durante o dia eu me movia como se caminhar não fosse diferente
de cair. Eu tinha os buracos
e o céu crivado. Eu não tinha nada.

Mesmo de longe,
eu conseguia ouvir o disco pulando.
O tempo escorria
das mãos. Dos rostos.

Na primeira vez em que um amante traçou
minha cicatriz, dedilhou seu rio
e beijou seu sulco, acordei cedo
na manhã seguinte e, em silêncio, parti.

https://singularidadepoetica.art/2023/12/14/ama-codjoe-por-que-deixei-o-jardim/

poemas-de-amor-corpo-e-cuidado

11. Sem título, de Rachel McKibbens10

Às minhas filhas, preciso dizer:

Fiquem com quem as ama biblicamente.
Aquele cujo amor ergue a cabeça para vocês
apesar do pescoço partido. Cujo corpo explode
em dezesseis braços elétricos para carrega-las, gentis
do modo como o luto antigo é gentil.

Amem o amor caótico em tudo que tem de excessivo,
o corpo que cavalga melhor o seu corpo, cuja boca
sela o sal nu de seus arrebatados quadris,
cuja língua traduz a linguagem de pedra
de todas as suas elegantes cicatrizes.

Fiquem com o que clama por suas trágicas irmãs
enquanto racha a lenha do inverno, aquele cuja pele
dispara seus corações a um céu de valsas de sangue.

Fiquem com aquele que mais se assemelha ao seu pai.
Não o pai que vocês podem apontar em um mapa,
mas o pai que está aqui, que é o lar de vocês,
a chave da porta da frente.

Saibam que seu primeiro amor será apenas o primeiro.
E o segundo, o terceiro e mesmo o quarto
não vão prepará-las para o mais importante:

O Bendito. A Besta. O Último Amor,

que é, claro, o tipo mais terrível.
Porque quem de nós quer ir atrás do que pode nos matar?
Pode revelar o verdadeiro fim de nossos corações e seus trinta anos
vividos na penúria? Pode imitar o som de nossas mães com vozes aladas,
replicar o calor do temperamento de nossos irmãos?
Pode nos arrancar de nós mesmas até não sermos mais irmãs
ou filhas ou engolidoras de espadas, mas, em vez disso,
mulheres que dão e lideram e tomam e querem
e querem e querem e querem,
porque não há vergonha em querer.

E vocês ouvirão a si mesmas dizendo:

Último Amor, desejo morrer para poder voltar para ti
nova e nunca provada por nenhuma outra boca além da tua.
E quero ser as mãos que puxam teus filhos
para fora de ti e os guardam profundamente dentro de mim, até estarem
prontos para serem filhos de um amor tão régio e estonteante.
Ou vocês vão dizer:

Último Amor, estou velha, e já me consumi com os covardes,
desperdicei tempo demais com homens menos merecedores,
por isso me arremesso ao teu trono e me prostro humildemente aos teus pés.

Último Amor, nunca me permitas sair desse pesado sonho que és tu,
permite que o dia em que nasci signifique que minha vida terminará
onde tu terminas. Permite que o homem atrás da igreja faça
o que fez se isso me trouxer até ti. Permite que as garotas
no vestiário me encurralem de novo se isso me trouxer até ti.
Permite que essa depressão selvagem me jogue sob seus cascos
se isso me trouxer até ti. Permite que eu pronuncie minha alegria acumulada
se isso me trouxer até ti. Permite que meu pai me quebre de novo
e de novo se isso me trouxer até ti.

Último amor, permiti que outros homens tomassem emprestados teus filhos. Perdoa-me.
Último amor, uma vez prometi meu coração a outro. Perdoa-me.
Último amor, permiti que minha mãos cegas e ansiosas vagassem por um quarto
e saíssem vazias. Perdoa-me.

Último amor, amaldiçoei as mulheres que amaste antes de mim. Perdoa-me.
Último amor, invejo o corpo de tua mãe, onde residiste primeiro. Perdoa-me.
Último amor, eu sou tudo o que restou. Perdoa-me.
Último amor, não te vi chegando. Perdoa-me.

Último Amor, cada dia sem ti foi uma vida da qual rastejei para sair. Amém.
Último Amor, tu és meu Último Amor. Amém.
Último Amor, eu sou tudo o que restou. Amém.

Eu sou tudo o que restou.
Amém.

https://singularidadepoetica.art/2024/06/12/rachel-mckibbens-sem-titulo/

poemas-de-amor-ultimo-amor
  1. Poeta norte-americana conhecida por uma lírica contida e precisa, Linda Pastan escreveu extensamente sobre amor, casamento, perda e vida doméstica, sempre explorando o ponto em que a intimidade encontra o risco. ↩︎
  2. Uma das grandes vozes da poesia uruguaia do século XX, Idea Vilariño escreveu sobre amor e perda com rigor emocional extremo e economia verbal radical. ↩︎
  3. Escritora e poeta norte-americana, Alice Walker explora temas de permanência, memória e resistência, frequentemente associando o amor à sobrevivência espiritual. ↩︎
  4. Poeta contemporânea, a norte-americana Vievee Francis investiga o amor como instinto, ética e risco, recorrendo a imagens de caça e sobrevivência. ↩︎
  5. Poeta e performer norte-americana, Caitlyn Siehl escreve sobre ausência, obsessão e linguagem como tentativa de manter o que se perdeu. ↩︎
  6. Poeta e dançarina indiana, Tishani Doshi escreve sobre intimidade, política do corpo e consciência da perda. ↩︎
  7. Poeta contemporânea que explora o cotidiano, a doença e o cuidado como formas profundas de amor. ↩︎
  8. Ellen Bass é conhecida por uma poesia visceral, que aborda sexualidade, trauma e vínculo com franqueza radical. ↩︎
  9. Poeta que escreve sobre corpo, doença e autonomia, Ama Codjoe investiga as escolhas que preservam o eu. ↩︎
  10. Rachel McKibbens escreve sobre trauma, desejo e redenção em registros de intensidade extrema. ↩︎

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