Mês: abril 2023
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Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções

Tentativa de ciúme –Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra?Fácil, não é? — Um golpe de remo! —E de pronto a linha da costaSe foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante(No céu, por certo, não no mar)!Almas! Almas! — antes amarComo irmãs, não como amantes! Como vai você…
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Paulo Henriques Britto – de “Oito sonetos entrópicos”

I Deixar de ser é coisa natural,como é natural ser. Pensando bem(ou só pensando, seja bem ou mal),o que haverá de natural, porém,em ser o que se é, e não ser, apenas?Não haverá um toque de artifícioimplícito em escamas, pelos, penas,nos ossos que sustentam o edifíciotodo, na fome que impele essa máquinafuriosa e cega, essa…
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Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa

Ela está bem aqui.Ela foi cuidadosamente esculpida para vocêsaída de sua infânciasaída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem.Ela é de fato extraordinária.Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiroe tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu fui passageira.Um artigo de luxo. Um…
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Paulo Henriques Britto – Bálsamo

Seja hoje um dia igual a qualquer outro,um dia besta, esvaziado e amorfo, o tipo de data que é esquecidaantes mesmo de virada a folhinha, e esteja você completamente imersoneste dia, como um peixe dessas espécies das regiões abissais, isentas de luz,longe do ar e seus azuis, que nas funduras de silêncio e noitefalta não…
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Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempoque os outros deixam de ladoporque lhes sobra ou já não sabemo que fazer com eletempoem brancoem rubroem verdemesmo em castanho escuronão me importa a corcândido tempoque eu não posso abrire fecharcomo uma porta tempo para olhar uma árvore, um farolpara caminhar à beira do descansopara pensar que bom que…
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Paulo Henriques Britto – Sobre o real

Há motivos bem sérios para nãose acreditar em nada de específico,quanto mais em geral. Pois se a razãotem algum valor, é ponto pacífico que conclusões geradas pela mentesó podem validar ulterioresconclusões, porém rigorosamentenada nas regiões inferiores, menos nefelibatas, da supostarealidade, em que as coisas têm pesoe consistência. Aqui tudo é uma aposta mais ou menos…
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Manuel António Pina – Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morridoe talvez nesse livro não escritonem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aquelesque a morte separou e um delesescreva agora isto como seacordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu),e talvez então tu, eu, esta impressãode estranhidão, de que tudo perdeude…
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Paulo Henriques Britto – de “Ao Leitor”

V Sofro dos nervos, como se diziaantigamente — ou, mais antigamenteainda, mergulho (mesmo de dia)numa “noche oscura del alma” (ou “mente”, para aliviar o peso asfixiantede dois milênios de neura cristã),estado em que a existência por um instante(que às vezes dura toda uma manhã) é um mal desnecessário, uma arrastada(talvez interrompível) epopeiasem herói — e…
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Roger Wolfe – A Última Noite da terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casaE, no entanto, ainda estou aqui.Sua melodia não muda, já o disse antes.Mas meu trabalho é constatar o óbvio,e é isso que o melro me faz lembrar.O tempo passa, as pessoas envelhecem e morrempor sua própria mão ou com ajuda.As palavras escorrem pelo ralodo que…